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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Erros que devem ser evitados na hora de elaborar uma redação




Em vestibulares e concursos, a prova de Redação é o grande fator de eliminação. Através dela, as instituições têm um indicador mais concreto da formação do aluno, diferentemente das questões de múltipla escolha. Por isso, é bom estar atento, para não cometer alguns "pecados"! Veja os equívocos apontados por organizadores de concursos e vestibulares como os mais comumente cometidos pelos alunos.

1 - Ordenação das ideias:

A falta de ordenação é um erro comum e indica, segundo os organizadores de vestibulares, que o candidato não tem o hábito de escrever. O texto fica sem encadeamento e, às vezes, incompreensível, partindo de uma idéia para outra sem critério, sem ligação.

2 - Coerência e coesão:

Em muitas redações, fica patente a falta de coerência: o aluno apresenta um argumento para contradizê-lo mais adiante. Já a redundância denuncia outro erro bastante comum: falta de coesão. Assim, ele fica dando voltas num assunto, sem acrescentar dado novo. É típico de quem não tem informação suficiente para compor o texto.

3 - Inadequação:

A inadequação é um tipo de erro capaz de aparecer inclusive em redações corretas na gramática e ortografia e coerentes na estrutura. Nesse caso, os candidatos costumam fugir ao tema proposto, escolhendo outro argumento, com o qual tenham maior afinidade. O distanciamento do assunto pode custar pontos importantes na avaliação.

4 - Estrutura dos parágrafos:

Muitos dos alunos têm demonstrado dificuldade em separar o texto em parágrafos. Sem a definição de uma ideia em cada parágrafo, a redação fica mal estruturada, capenga. Um erro muito comum, nesse caso, é cortar a ideia em um parágrafo para concluí-la no seguinte. Ou, então, deixar o pensamento sem conclusão.

5 - Estrutura das frases:

Erros de concordância nos tempos verbais, fragmentação da frase, separando sujeito de predicado, utilização incorreta de verbos no gerúndio e particípio são algumas das falhas mais comuns nas redações. Esses erros comprometem a estrutura das frases e prejudicam a compreensão do texto.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Linguagem Verbal

Existem várias formas de comunicação. Quando o homem se utiliza da palavra, ou seja, da linguagem oral ou escrita, dizemos que ele está utilizando uma linguagem verbal, pois o código usado é a palavra. Tal código está presente, quando falamos com alguém, quando lemos, quando escrevemos. A linguagem verbal é a forma de comunicação mais presente em nosso cotidiano. Mediante a palavra falada ou escrita, expomos aos outros as nossas idéias e pensamentos, comunicando-nos por meio desse código verbal imprescindível em nossas vidas. Ela está presente em textos e propagandas:



 em reportagens (jornais, revistas, etc.);
 em obras literárias e científicas;
 na comunicação entre as pessoas;
 em discursos (Presidente da República, representantes de classe, candidatos a cargos públicos, etc.);
 e em várias outras situações.





O termo "verbal" tem origem no latim "verbale", proveniente de "verbu", que quer dizer palavra. Linguagem verbal é, portanto, aquela que utiliza palavras - o signo linguístico - na comunicação.



A linguagem verbal tem duas modalidades: a língua escrita e a língua oral. Linguagem oral é a que se usa quando o interlocutor está frente a frente conosco e justamente podemos falar com ele. Já a escrita, em tese, é usada quando o interlocutor está ausente. Entre a linguagem oral e a escrita há muitas diferenças, mas não uma oposição rígida.
Na linguagem oral, o ambiente é comum a ambos os falantes. Por isso, quando usam "eu", "aqui", "hoje", não precisam explicitar do que se trata. Além disso, os gestos, expressões faciais, altura do tom da voz, contribuem para a clareza da comunicação. Nesse sentido, a linguagem oral usa recursos diferentes daqueles usados na linguagem escrita. Veja a frase "João comeu o bolo". Podemos dizê-la:

1) Colocando ênfase na palavra João, em João comeu o bolo. Então, essa frase poderia estar respondendo a uma pergunta como "Quem comeu o bolo?".

2) Falando de maneira mais forte a palavra comeu, em João comeu o bolo. Nesse caso, poderíamos estar respondendo a algo como "Que fez João?".

3) Colocando o acento na expressão o bolo, em João comeu o bolo, o que poderia ser a resposta de "O que comeu João?".

Recursos da escrita

Na linguagem escrita, precisamos explicitar quase tudo que queremos que o nosso interlocutor entenda. A frase acima precisaria vir acompanhada de uma informação a respeito do ambiente onde se encontram João e o bolo (uma festa, o trabalho, a cozinha etc..), explicitação de quem participa do diálogo, introdução de um verbo dicendi (fulano/a falou, disse, perguntou, gritou, murmurou, cochichou, berrou, por exemplo), o sinal gráfico que indica a introdução da fala de alguém: o travessão ou aspas.
Mas nem por isso a escrita é mais complexa e a fala mais simples. O grau de formalidade no uso da linguagem oral depende do ambiente em que se encontra o falante, do objetivo a atingir, de quem são os ouvintes.
Há situações que exigem falas elaboradas, isto é, com vocabulário e organização mais próxima da escrita, mas na maior parte do tempo nós usamos a chamada linguagem coloquial, a linguagem do dia-a-dia. Por outro lado, há situações em que convém o uso de uma escrita mais pessoal, como no caso de um bilhete ou em uma lista, como há ocasiões, precisamos organizar um texto formal, de acordo com a norma culta da língua.



A escrita alfabética

Em linhas gerais, o alfabeto é um sistema de sinais, as letras, que representam os sons da fala. A palavra vem do latim alphabetum, formada por duas outras palavras alpha e beta, as duas primeiras letras do alfabeto grego.
Sabe-se que o alfabeto grego veio de adaptação da escrita dos fenícios. Os estudos da escrita antiga são realizados geralmente a partir de inscrições de vasos e outros objetos, encontrados por arqueólogos. No caso da cultura grega, existem inscrições em cerâmicas no século 8 a.C.




O uso da escrita marcou a civilização moderna, principalmente a partir da invenção da imprensa, por volta de 1450, por Gutemberg, que pelo uso das letras móveis tornou possível a reprodução rápida de textos escritos, anteriormente copiados à mão. Como consequência, a civilização moderna pôde se organizar em torno da transmissão da informação pela escrita: jornais, revistas, livros...



Associar a imagem acima ao título do texto é uma forma bem humorada de chamar atenção para algo que todos nós vivenciamos, mas não paramos para analisar.
No nosso dia-a-dia estamos em constante diálogo, seja com outras pessoas ou até individualmente, com nossos botões. Porém, a parte mais interessante disso tudo é que nem sempre precisamos falar para manter uma comunicação com alguém, até mesmo uma troca de olhares ou um sorriso no canto dos lábios podem dizer muita coisa.
O texto, seja ele escrito ou uma imagem, também é uma forma de diálogo entre alguém que deseja transmitir uma informação para outro alguém.
Podemos concluir que Linguagem Verbal é tudo que pode ser falado.

Clichê, uma forma de Linguagem Verbal

Você, com certeza, já ouviu, muitas e muitas vezes, as expressões abaixo:

"Minha vida é um livro aberto."
"Vivendo e aprendendo."

Pelo fato de serem expressões utilizadas em excesso, tornaram-se desgastadas. São os chamados clichês. O clichê é conhecido como "chavão" e "lugar-comum".
Como vício de linguagem, deve ser evitado. Procure sempre uma outra expressão ou frase para substituir o clichê que você utilizaria.

1. Alguns provérbios são considerados clichês porque são usados com tal frequência que acabam por expressar falta de inventividade do emissor da mensagem. Isto não significa que você não deva usar provérbios, mas evitar aqueles que já foram citados em excesso.

Exemplos de provérbios considerados clichês:

Clichês (provérbios)

Deus escreve certo por linhas tortas.
Em casa de ferreiro, espeto de pau.
Filho de peixe peixinho é.
Não cuspa no prato em que comeu.
Não cuspa para cima que cai na cara.
Quem ama o feio bonito lhe parece.
Quem vê cara não vê coração.


2. Mas não é só na linguagem popular que ocorrem clichês. Há pessoas que gostam de usar citações de frases alheias, mas o fazem erroneamente ao mencionar um autor que não proferiu a frase citada ou, pior, desconhecem a autoria da citação. Erram, também, ao mencionar a frase de forma diferente da original – isso tem ocorrido muito em mensagens transmitidas via Internet. Além disso, mesmo citadas corretamente, algumas frases já ficaram desgastadas com o tempo.

Atenção: você não deve deixar de usar citações, mas evitar aquelas que, de tanto serem utilizadas, perderam seu significado. E, quando fizer citações, faça-as corretamente e informe quem é seu autor.


Clichês (citações)

"Só sei que nada sei." (Sócrates)
"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena." (Fernando Pessoa)
"Há algo de podre no reino da Dinamarca." (Shakespeare)
"Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia." (Shakespeare)
"Penso, logo existo." (Descartes)
"Ser ou não ser, eis a questão." (Shakespeare)

3. Na era da Informática, recebemos muitas curiosidades pela Internet. É comum os internautas recriarem a linguagem comum, já bastante conhecida, em outra mais engraçada e até crítica. Estes autores fazem, portanto, paródia de textos originais. Alguns ditados comuns foram transformados em outros textos interessantes.




Veja, agora, como Millôr Fernandes utiliza alguns provérbios - já transformados em clichês, de tanto serem usados - mudando o nível de linguagem coloquial para o técnico ou pelo sentido exato que vem no dicionário:





Chico Buarque de Holanda, na canção "Bom Conselho", faz também uma brincadeira com a linguagem dos provérbios bem conhecidos. Ele recria a linguagem proverbial em outra de cunho próprio. Assim, expressa sua visão crítica da realidade. Observe.






Para finalizar, é bom saber que os clichês não ocorrem só na linguagem verbal, mas também em outras linguagens. São situações recriadas à exaustão, como as abaixo que você vai reconhecer:
Nas novelas de televisão: Moça pobre, boa, honesta e trabalhadora apaixona-se por homem rico e poderoso cuja família não aprova a relação entre os dois. Gera-se uma situação de conflitos (pessoais, sociais, afetivos, financeiros) que culmina com um final feliz: a moça pobre e boa casa-se com o homem rico e poderoso contra a vontade da família má do moço. É uma situação-clichê usada à exaustão em roteiros românticos televisivos.
Na publicidade: Uma praia ou um campo com aspecto paradisíaco, muito claro. Uma moça e um moço com roupas leves e esvoaçantes; cada um vem de um lado correndo (em câmara lenta) até se encontrarem no meio do cenário. O moço enlaça e gira a moça. O resultado é transmitir uma sensação de bem-estar. É uma situação-clichê que serve de cenário para a propaganda de produtos de gêneros diversos.
Nos filmes ou séries televisivas: Rapaz franzino, de aspecto humilde, bom caráter, defensor da justiça social confronta-se com adversário de aspecto físico forte, avantajado, de índole maléfica e mau caráter. Em algum momento, os dois entram em conflito e o jovem com aspecto pouco saudável revela-se exímio lutador de artes marciais e inteligência acima da média. Vence o homem forte e grande, que revela-se pouco dotado de inteligência e faz mau uso da força bruta. A situação-clichê é que o mocinho justo é hábil sempre vence o malfeitor.

domingo, 9 de outubro de 2011

A Estilística da frase - Parte I




FRASE: veicula os valores expressivos em potencial nas palavras, as quais, somente nela, têm o seu sentido explicitado e adquirem seu tom particular – neutro ou afetivo.

O importante é analisar a expressividade peculiar de cada construção, aspectos que interessam à estilística.

I – FRASES COMPLETAS (SIMPLES)

 As frases de predicado nominal podem ter valor intelectual quando exprimem um fato, uma classificação, uma definição ou uma descrição objetiva.
O sol é uma estrela. / A terra é redonda.

 As frases de predicado nominal têm valor emotivo quando se prestam à expressão de julgamento de valor.
A vida é bela. / Este poeta é um gênio!

ou quando veiculam imagens que constituem definições fantasiosas, modos pessoais de interpretar a realidade.
O campo é o ninho do poeta.

 As frases com verbo transitivo exprimem o dinamismo da vida em seus aspectos físico, emocional e social.

As plantas produzem alimentos.
O ladrão arrombou o cofre.
O vento derrubou a rosa.

 O adjetivo predicativo do sujeito alterna freqüentemente com o advérbio, tirando os estilistas proveito dessa dupla possibilidade. Eça de Queirós descreve o cair da neve em múltiplas construções:

A neve caía, levemente.
A neve ia caindo direta e vaga....
A neve caía triste.
A neve caía desfeita e branca.
A neve caía, contínua, silenciosa.



II – FRASES COMPLETAS (COMPLEXAS)
As orações que entram numa frase apresentam maior ou menor grau de dependência e coesão.

A- Na coordenação

Construção assindética (ausência de conjunção entre as orações): tem um tom mais espontâneo, menor rigor lógico, é mais ágil, sugere a simultaneidade (sem vocábulo com a função específica de estabelecer nexo).
Amaro fungava, resmungava, franzia a cara cabeluda...
(Graciliano Ramos)

Construção sindética (coesão entre as orações reforçada por um nexo): construção mais enfática, visto que pode destacar cada uma das orações.

Monteiro Lobato, concluindo a descrição do salão de baile do Príncipe Escamado, para obter o máximo de ênfase, diz:

“ O salão parecia um céu aberto (...)Não houve ostra que não trouxesse a sua pérola, para pendurá-la num galhinho de coral ou jogá-la ali como se fosse cisco. E o que não era pérola, era flor e o que não era flor era nácar, e o que não era nácar era rubi e esmeralda e ouro e diamante. Uma verdadeira tontura de beleza!” (Reinações de Narizinho, em Obras Completas, p. 21)

B – Na subordinação (relação de dependência entre termos da oração)

As orações podem ter formulação bastante variada, com diferentes graus de intensidade e índice de ocorrência. Por exemplo:

 com a conjunção embora ou equivalentes: “Embora sofra muito, não se queixa.” Machado de Assis gostava muito da construção com posto, seguido ou não de que. (“O código, posto que velho, valia por trinta novos...”)

 com intensificadores como por mais que, por menos que, por muito que, por pouco que, constroem-se também frases em que a oposição é bastante enfatizada: “Por mais que me expliquem esse problema, não consigo entendê-lo.”

A preferência por períodos mais curtos ou mais amplos depende do gosto pessoal do escritor, do estilo da época ou do gênero de composição.
III – FRASES INCOMPLETAS (ELÍPTICAS): há ausência de elementos lingüísticos e podem apresentar vários graus de implicitação e de afetividade. Nesse caso, a entoação é forte portadora de significado.

Bonita, esta menina. (incompleta): realça o adjetivo; a pausa marca a entoação diferenciada.
Esta menina é bonita. (completa)


Cada macaco no seu galho é mais impressivo que seria Cada macaco deve ficar em seu galho. A força expressiva está mais no sentido metafórico e valor tradicional da frase feita, mas a estrutura também é importante.

 Frases de um só membro: o sentido se completa com um segundo membro não expresso, mas inerente ao contexto. Normalmente tem função referencial e conativa (comunicam e advertem).

Fechado para almoço. / Silêncio. / Prazer em conhecê-lo. / Caramba!

Pátios de seixos.
Escadas. Boticas.
Pontes. Conversas.
Gente que chega e que passa.
E as idéias.
Amplas casas. Longos muros.
Vida de sombras inquietas.[...]
(Cecília Meireles. Obra poética)

 Frases desarticuladas resultam num texto denso, um painel sintético de uma região e de uma época. Produzem efeito de um enfoque sucessivo de traços significativos das coisas, pessoas, cenários.

 Frases fragmentárias: frases incompletas que são fragmentos destacados de outras frases mediante a entoação; sua significação depende do relacionamento com as frases de que se destacaram.

Na outra rua tocavam piano. Monotonamente.

 O advérbio só se justifica ao ser ligado à expressão verbal “tocavam piano”. Estilisticamente, o termo destacado ganha um relevo maior do que teria integrado normalmente na construção lógica. Assim, exprime julgamento. Do contrário, apenas uma constatação.
Elipse: meio de expressão resultante da ausência de elementos lingüísticos que a mente não procura mais restabelecer.

 Expressão hesitante ou truncada do pensamento: “Eu só queria...”
 Economia lingüística: Cristais / copos de cristal
 Movimentos afetivos: Não é possível! Como?! Você aqui?? Fora!! São as que servem à função emotiva e mais interessam à estilística.

Quando o Bento Porfírio veio a conhecer a prima de-Lourdes, ela já estava casada com o Alexandre. Foi só ver e ficar gostando. E ela também. (Guimarães Rosa)
... e ficar gostando dela. E ela também ficou gostando dele.

O negrinho se endereça a ele, mas agora com requintes de suaviloqüência. Guimarães Rosa
... agora o faz com requintes...

Pleonasmo (redundância): informação transmitida por uma quantidade de signos lingüísticos superior ao essencialmente necessário.

 Pleonasmo expressivo: o que enfatiza as idéias transmitidas; como recurso de estilo, imprime vigor, vivacidade ao pensamento.

O Patori... tinha matado assassinado um rapaz.
Guimarães Rosa dá ênfase à fala de seus sertanejos.

Educação, só a tinham os nobres.
(Monteiro Lobato)
o termo destacado e retomado por um pronome fica enfatizado, ganha vigor maior do que numa construção lógica.

A ordem dos termos na frase é um aspecto de máxima relevância para a feição estilística da frase e do texto, visto que determina o ritmo e a valorização de idéias e sentimentos, propiciando efeitos variados.

Oh! Ver não posso este labéu maldito! (Castro Alves)
Desse professor ninguém gosta.
É um encanto essa criança!
Fita-o com interesse, ao tipo que tem mãos de mulher, ruivos os cabelos enormes. (Adonias Filho)
 Dessa forma, o adjetivo ruivos é enfatizado; se a frase fosse logicamente articulada, a força expressiva seria reduzida.

sábado, 8 de outubro de 2011

A Estilística da frase - Parte II





Na sintaxe, quem fala ou escreve escolhe entre os tipos de frase, de acordo com as regras gramaticais, mas esse processo é, sobretudo, uma atividade criadora e, portanto, pertence tanto ao domínio gramatical quanto ao domínio estilístico.

A frase veicula valores expressivos em potencial nas palavras, que adquirem seu sentido explicitado e o seu tom particular – neutro ou afetivo. À Estilística interessa tanto a combinação das regras estabelecidas pela norma gramatical quanto os desvios dela que constituem traços originais e expressivos.

Como unidade de comunicação, a frase exprime um sentido, encerra um conteúdo, que corresponde à sua função. Daí a classificação em: declarativa (em que o emissor exprime um fato que a seu juízo é verdadeiro ou falso; marcada por entonação descendente que corresponde ao ponto final), exclamativa (que realiza a função emotiva, em que o falante deixa transparecer sentimentos variados, com entonação ascendente), imperativa (que realiza a função apelativa, em que o falante exprime um fato desejável ou indesejável numa ordem, num pedido, numa súplica), interrogativa (é simultaneamente emotiva e apelativa, de entonação variável conforme tenha ou não palavra interrogativa).

Denomina-se, geralmente, oração a frase de estrutura binária (sujeito + predicado). Portanto, a frase pode ou não ser oração, ser completa e incompleta, explícita e implícita. O mais comum, porém, é que um discurso se constitua de mais de uma frase, havendo entre elas elementos de coesão como conjunções, vocábulos anafóricos, elipse, vocábulos repetidos, sinônimos ou pertencentes a um mesmo campo de significação.

A frase completa pode ser :
 Simples: apenas um verbo principal, que pode ser de significação gramatical ou de significação nocional.

Verbo de significação gramatical é o verbo de ligação ou copulativo, que integra o predicado nominal (cuja palavra significativa é um nome).
As frases de predicado nominal podem ter valor intelectual quando exprimem um fato, uma classificação, uma definição ou uma descrição objetiva.
Exs.: O sol é uma estrela.
A terra é redonda.

As frases de predicado nominal têm valor emotivo quando se prestam à expressão de julgamento de valor.
Ex.: A vida é bela.
Ou quando veiculam imagens que constituem definições fantasiosas, modos pessoais de interpretar a realidade.
Ex.: O campo é o ninho do poeta.

Os verbos de significado nocional, extralingüístico, podem ficar restritos ao sujeito ou estabelecer uma relação entre o sujeito e outro ser, conforme sejam intransitivos ou transitivos.
Nas frases de verbo intransitivo fala-se de um sujeito isolado, cuja ação fica restrita a ele próprio, não se estendendo a outros seres ou ao seu ambiente. São os verbos que exprimem os fenômenos existenciais (viver, nascer, crescer, morrer, sofrer), manifestações emocionais (chorar, rir, suspirar, gemer), processos mentais (pensar, sonhar, raciocinar) ou emissões de voz (gritar, falar, cantar, rosnar, latir, balbuciar); ainda se incluem nesse grupo verbos de movimento, podendo-se indicar ou não o lugar em que se dá a deslocação do sujeito (ir, chegar, caminhar, correr, dançar, nadar, voar, pular, fugir, viajar).
Nas frases de verbo transitivo já temos o sujeito relacionado a outro ser – o objeto; o ser denotado pelo sujeito projeta-se sobre o ser denotado pelo objeto. As frases com verbo transitivo exprimem o dinamismo da vida, com seres em todos os tipos de relacionamento – físico, emocional, social.
Exs.:
As plantas produzem alimentos.
O ladrão arrombou o cofre.
O vento derrubou a rosa.
Os pais amam os filhos.

Frases com verbos transitivos têm a função de comunicar o que se passa num mundo em que os seres atuam uns sobre os outros, e de cuja atividade resultam produtos e efeitos que se refletem na vida de uns e outros.

Um tipo de predicado complexo, simultaneamente verbal e nominal, é o que se pode explicar como resultado da fusão de dois predicados ou de duas orações.
Exs.:
As crianças brincavam contentes.(As crianças brincavam ./ As crianças estavam contentes)
Encontrei Maria doente. (Encontrei Maria./ Maria estava doente.)

O adjetivo predicativo do sujeito alterna freqüentemente com o advérbio, tirando os estilistas proveito dessa dupla possibilidade.
Ex.:
“A neve caía, levemente.”
“A neve ia caindo direta e vaga....”
“A neve caía triste.”
“A neve caía desfeita e branca.”
“A neve caía, contínua, silenciosa.”

Também entre o sujeito e o verbo dos vários tipos de frase existe a possibilidade de haver ou não uma pausa. Isso quer dizer que a ligação entre os dois elementos da frase pode apresentar graus, variando a estrutura rítmica.Ex.:
O menino brincava.
O menino, brincava. / O menino, ele brincava.

Freqüentemente a segmentação é acompanhada de uma inversão e de um pleonasmo: “Ele é meio esquisito, este menino.”A segmentação é um procedimento eminentemente expressivo, em que ambas as partes ganham relevo e é usual na língua falada. Qualquer termo, além do sujeito, pode ser destacado na oração, tornando-se tema do enunciado.

 Complexa: Como os termos da oração, as orações que entram numa frase também apresentam maior ou menor grau de dependência e coesão.

 Coordenação: orações que se apresentam uma após outra, cada qual com independência de construção, uma não fazendo parte da outra.
- Coordenação Assindética: coesão entre elas é de natureza semântica, sem vocábulo com função específica de estabelecer nexo. Ex.: O professor falava, os alunos ouviam.
A construção assindética é mais comum na língua oral, tem um tom mais espontâneo, menor rigor lógico; é mais ágil, sugere a simultaneidade ou rápida seqüência dos fatos. É construção apreciada por Graciliano Ramos.

- Coordenação Sindética: a coesão entre as orações é reforçada por um nexo – a conjunção coordenativa. A conjunção mais freqüente é e, cujo valor fundamental é reunir fatos que se acrescentam (aditiva),mas pode estabelecer várias outras relações que se apreendem pela própria significação das orações.

De cunho estilístico, a ausência de conjunção denomina-se assíndeto e a repetição a partir da segunda oração, polissíndeto (construção enfática, visto que destaca cada uma das orações).

Monteiro Lobato , concluindo a descrição do salão de baile do Príncipe Escamado, associa o polissíndeto a um tipo de repetição encadeada (cujo nome retórico é anadiplose) para obter o máximo de ênfase:
“ O salão parecia um céu aberto (...) Flores em quantidade trazidas e arrumadas por beija-flores. Tantas pérolas soltas no chão que até se tornava difícil o andar. Não houve ostra que não trouxesse a sua pérola, para pendurá-la num galhinho de coral ou jogá-la ali como se fosse cisco. E o que não era pérola, era flor e o que não era flor era nácar, e o que não era nácar era rubi e esmeralda e ouro e diamante. Uma verdadeira tontura de beleza!” (Reinações de Narizinho, em Obras Completas, p. 21)

 Subordinação: relação de dependência ou regência. A oração subordinada é um termo da oração subordinante, equivalendo a um substantivo, ou adjetivo, ou advérbio.
Os termos parataxe e hipotaxe são geralmente usados como sinônimos de coordenação e subordinação. No dicionário de Lingüística de Dubois, porém, a parataxe corresponde ao processo sintático em que não se procede ao encaixe de uma frase na outra, nem há coordenação de uma em relação à outra. Portando, a parataxe tanto compreende os casos de coordenação assindética, como os casos em que uma construção formalmente coordenada (ou justaposta) estabelece uma relação de dependência (causa, conseqüência, por exemplo) que poderia ser expressa por subordinação. O termo hipotaxe não coincide com subordinação, mas corresponde à explicitação da relação de dependência por uma partícula.

Por coordenação, temos:
- orações justapostas (parataxe): “Falou, falou, nada disse.”
- orações ligadas por e : “Fez muitos benefícios e só recebeu ingratidão.”
- orações ligadas por conjunção adversativa: “A moça tinha mais qualidades, mas faltava-lhe a principal: a bondade.”
Por subordinação, temos orações chamadas concessivas , que podem ter formulação bastante variada, com diferentes graus de intensidade e índice de ocorrência.

- com a conjunção embora ou equivalentes (ainda que, mesmo que, se bem que, posto (que), apesar de que). “Embora sofra muito, não se queixa.” Machado de Assis gostava muito da construção com posto, seguido ou não de que. (“O código, posto que velho, valia por trinta novos...”)

- com verbo no infinitivo precedido de preposição: apesar de, a despeito de, não obstante, com, sem. “Apesar de ter tudo, não é feliz.” A construção com com é mais literária, clássica. “Com ser um país muito extenso, o Brasil não é uma potência.”

- com verbo no gerúndio, geralmente precedido de alguma palavra que explicite a idéia de oposição. “Sendo eu seu amigo, não confia em mim.”

- o verbo de ligação ou o auxiliar podem ser omitidos, ficando apenas o predicativo. “Torturado embora, não denunciou os companheiros.”

- com predicativo anteposto + que + verbo de ligação no subjuntivo, temos uma construção enfática: “Pobres que sejamos, sempre temos alguma coisa para dar.”

- com intensificadores como por mais que, por menos que, por muito que, por pouco que, constroem-se também frases em que a oposição é bastante enfatizada: “Por mais que me expliquem esse problema, não consigo entendê-lo.”

A preferência por períodos mais curtos ou mais amplos depende do gosto pessoal do escritor, do estilo da época ou do gênero de composição. O período solene, em que se encadeiam múltiplas orações, em que se desfiam enumerações, rico de modulações, atende melhor à grandiosidade da epopéia ou à veemência apelativa da oratória. O período breve é mais concorde com a simplicidade do texto didático, com a espontaneidade das manifestações emotivas ou com a vivacidade dos diálogos, com o tom despretensioso da crônica.

 FRASE INCOMPLETA
Há frases que não se estruturam em sujeito e predicado. Trata-se da frase incompleta, também denominada inorgânica, inarticulada, elíptica. O seu entendimento exige certos dados contidos na situação de enunciação ou no contexto lingüístico.
A frase incompleta pode apresentar vários graus de implicitação e de afetividade. Partindo das frases com menos elementos implícitos para as mais condensadas, temos:

 Frases de dois membros (dirremas). Bastante corriqueira é a construção do tipo: Bonita, esta menina, que exprime o mesmo fato da frase completa: Esta menina é bonita.
Muitos provérbios e frases sentenciosos têm a sua expressividade realçada por essa construção, a ausência de verbo tornando-os atemporais, de valor permanente, universal. Assim, Cada macaco em seu galho é mais impressivo que seria Cada macaco deve ficar em seu galho.
Muitas das frases desse tipo apresentam um paralelismo que acentua uma idéia implícita de causa, conseqüência, oposição, tempo etc.

 Frases de um só membro (monorremas), cujo sentido se completa com um segundo membro não expresso mas inerente no contexto ou na situação.
Encontramo-las em:
- informações sumárias, avisos, anúncios:
Fechado para almoço.
Rua sem saída.
As frases desse tipo têm função referencial e conativa: comunicam e advertem.

- ordens, proibições, advertências (função conativa predominante):
Silêncio.
Atenção.

- títulos de obras, matérias jornalísticas etc.
Dom Casmurro. O Pensador.
“Queda da inflação.” “Os menores abandonados”

- anotações sucintas:
Cartas por responder. Ofícios enviados.
Chuva. Tédio. Solidão.

- saudações, fórmulas de cortesia:
Bom dia. Adeus.
Muito obrigado. Com licença.

- Interjeições, exclamações:
Chi! Oba! Credo! Caramba!
Coitado do velho!
Que horror!
Essas frases unimembres, freqüentíssimas na linguagem coloquial, são também bastante empregadas na literatura moderna. Em poesias descritivas e narrativas esse tipo de frase produz efeito de rapidez, de enfoque sucessivo dos traços mais significativos das coisas, das pessoas, dos cenários, dos lances mais importantes da ação ou dos acontecimentos.

 Frases fragmentárias: são fragmentos destacados de outras frases mediante a entoação; a sua significação depende do relacionamento com as frases de que se destacam. Ex.: “Na outra rua tocavam piano. Monotonamente.”


 ELIPSE : é a brevidade da expressão resultante de alguma coisa que se deixou de dizer, ou por se ter dito em outra frase, oração ou sintagma, ou por outra razão de ordem afetiva ou estética. A frase elíptica escapa à estrutura lógica, explícita, sendo que os elementos omitidos podem ser recuperáveis no contexto ou supridos pelo raciocínio, pela suposição, como base no confronto com a estrutura frásica normal e também no sentido geral do enunciado.
Exs.:
“ Os mangues da outra margem jogam folhas vermelhas na corrente. Descem como canoinhas. Param um momento ali naquele remanso.” (Sag.p. 192)

“ O negrinho se endereça a ele, mas agora com requintes de suaviloqüencia” (Sag. P. 208)

“Soropita se desgostava, não podia deixar de, se eles todos também viessem.” (Noites... p.27)

- A elipse de palavras nocionais é rara, mesmo em escritor inovador como Guimarães Rosa, a não ser os casos já comuns de substantivação de adjetivo. Exs.:
“Vá-se a camisa, que não o dela dentro.” (Tut. p. 39)
“ Já de manhã, no seguinte, ocultando, caçou jeito de aprender a respeito daquelas matérias...” (Noites... p. 21)
“ Eu acho que nunca vi espigas de milho tão como as de lá.” (Ib. p. 73)

- A elipse de palavras gramaticais é a que geralmente ocorre, visto que a relação ou determinação que elas exprimem é dedutível da própria significação dos termos expressos.Exs.:
“Mulher perguntou se ele queria beber gol, se doente estava” (Noites... p. 20)
“ Ali mesmo, para cima do curral, vez pegaram um tatu peba.” ( Manuelzão..., p. 139)
“ Umas moças, cheirosas, limpas, os claros risos bonitos, pegavam nele, o levavam...” (Manuelxão... p. 8)
“ Todos achavam não valia a pena.” (Noites... p. 17)
“Tenho tempo hoje não, moça.” (Noites... p. 19)
“Aquele silêncio, que pior que uma alarida.” (G. sertão p. 207)

 PLEONASMO: Considera-se redundância o fato de uma informação ser transmitida por uma quantidade de signos lingüísticos superior ao essencialmente necessário. Ocorre em todos os níveis da linguagem (fônico, semântico, morfossintático). A noção de grau normal de redundância da língua faz parte da competência dos usuários. Sentimos a sua redução na elipse e o seu aumento no pleonasmo.
Segundo Bally, pleonasmo gramatical é a redundância normal da língua (marca de plura, por exemplo). Já o pleonasmo vicioso é o que se deve à ignorância do significado exato ou da etimologia das palavras (do tipo hemorragia de sangue, decapitar a cabeça etc.). É expressivo o pleonasmo que enfatiza as idéias transmitidas.
Exs.:
“Viram que uma outra também se fora ajuntando, crescendo, sem que eles reparassem, e era enorme agora, guaçu, macota, gigantesca! amavam o João! Adoravam João!” ( M. de Andrade, “Jaburu malandro”, Contos de Belazarte, p. 39)

“Todos nus e da cor da escura treva.”
(Camões, Lus. V. 30; ap. C. Brandão)
“Ninguém não vê (...) nem um pé de cana.” (J. Lins do Rego, Menino de engenho, p. 28)

“Deus, esse, minha rica, está longe.” (Eça , Primo Basílio; ap. Guerra da Cal p. 2070

“... estavam sem saber como voltar para suas casinhas deles.” (Manuelzão... p. 18)

 ANACOLUTO: se o termo que inicia a frase fica sem função sintática própria, servindo apenas como co-referente de um pronome mais ou menos próximo, temos a quebra de construção a que se dá o nome de anacoluto.
Ex.: “ Eu, que era branca e linda, eis-me medonha e escura.”
(Poesia completa e prosa, p. 126)

“Santo Antônio, (...) abriu-lhe Deus um dia os olhos para que visse neste mundo o que nós não vemos.” (Sintaxe clássica portuguesa p. 810)

Um dos melhores exemplos de anacoluto, pela simplicidade e pelos efeitos estilísticos, é este de Gonçalves Dias, na “Canção do tamoio”:
“O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz.”
(Poesias americanas, em Obras poéticas, t. 2, p. 43)
O termo forte, a que se relacionam os pronomes seus e o, ganha força expressiva por encabeçar o verso e por ficar anteposto ao seu antônimo.

Dos modernos escritores brasileiros, talvez seja Raches de Queiroz quem mais usa o anacoluto, bem ajustado a sua prosa de tom coloquial, com raros artifícios. Ex.:
“D. Mundinha, criados os filhos, sozinha em casa com o seu velho, davam-lhe nostalgias da maternidade, de crianças pequenas.” (p. 51)

Pelos exemplos, pode-se observar que o anacoluto é também um pleonasmo; talvez se explique melhor dizendo que o anacoluto está na quebra da estrutura sintática e o pleonasmo na presença de dois vocábulos para uma idéia.


 PARTÍCULA DE REALCE

Certas partículas destituídas de valor nocional e sintático, mas portadoras de valor expressivo, comumente chamadas de realce ou espontaneidade, ou ainda expletivos.
Mattoso Câmara enumera os seguintes casos:
- um pronome adverbial:
“ - E vocês também não me voltem mortos. Quero-os bem vivinhos e perfeitos.” (M. Lobato. O Minotauro, em Obras completas, p. 84)

- um pronome reflexivo com verbos intransitivos:
“Daí, caminhou primeiro até de costas, fugiu-se, entrou outra vez no mato.” (G. Rosa, G. sertão, p. 221)

- um advérbio como lá, bem, assim:
“Vocês são brancos, lá se entendam.” (frase feita)

- partícula que:
“Bem que sabe o que eu quero dizer.” (G. Rosa, Sag. P. 200)
“Chegou perto da veda, olhou que mais olhou, e deu um grito desmaiando.” (M. de Andrade, Macunaíma, p. 23)
“Ele é que mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava.” (M. de Assis, Memórias..., em Obra completa, v. I, p. 592)

Além dos casos relacionados por Mattoso Câmara podem acrescentar-se:
- o verbo ser (é, era, foi) precedido ou não de mas:
“Ele está mas é enganado o companheiro!” (G. Rosa, Sag. P. 133)

- aquilo, isso
“Foi ao Morenal com a D. Maria. Aquilo, naturalmente foram para casa das Gansosos passar a noite.” ( O crime do Padre Amaro, em Obras de Eca de Queiroz, v. I, p. 19)

- no estilo superambundante de Guimarães Rosa:
“A chuva de certo vinha de toda parte, de em desde por lá, de todos os lugares que tinha.” ( Manuelzão... p. 23)


 A ORDEM DOS TERMOS DA FRASE
- A Ordem dos Termos no Sintagma Nominal:
De modo geral, coloca-se antes do substantivo o adjetivo que exprime valor apreciativo (uma bela idéia, uma comovente dedicação) e coloca-se depois o adjetivo que enuncia particularidade que caracteriza o objeto, definindo-o, distinguindo-o de outros, classificando-o (homens ignorantes, fama internacional, tecidos finos, música clássica).
A colocação absolutamente predominante do adjetivo antes do substantivo só é encontrada em casos bem excepcionais. O mais comum é que num texto se misturem adjetivos pospostos e antepostos, em proporções variáveis, mas quase sempre predominam os pospostos.
Havendo dois ou mais adjetivos, as possibilidades de distribuição aumentam consideravelmente, podendo ficar todos depois ou antes do substantivo, ou ser divididos, conforme mais convenha ao ritmo desejado. Na linguagem poética encontramos, também, anteposto ao substantivo o adjunto preposicionado. Observe-se na estrofe seguinte de Cruz e Sousa a distribuição dos adjetivos e a anteposição dos adjuntos com preposição:
“Do teu perfil os tímidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços,
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos.”
(Poesias completas, p. 42)

- A ordem dos termos no Sintagma Verbal:
No sintagma verbal é normal que o auxiliar anteceda o verbo principal. Mas quando se quer enfatizar o verbo principal, ele pode ser antecipado, quer na linguagem falada, quer na linguagem poética.
Exs.: “Fugir você não pode.” “Morrer, quem é que quer?”.
“Oh! Ver não posso este labéu maldito!” (C. Alves, Obra completa, p. 199)


- A posição do advérbio:
Os advérbios intensificadores, que se incluem num sintagma nominal, modificando adjetivo ou particípio (muito bonito, demasiado tosco, suficientemente preparado), são normalmente antepostos. Os advérbios que contêm uma determinação precisa se pospõem ao verbo (chegar inesperadamente, agir lealmente, chorar desesperadamente). De um modo geral, o advérbio apresenta grande liberdade de colocação, e essa liberdade aumenta se o advérbio se refere a toda a frase, indicando o julgamento do falante a respeito do fato que enuncia.

- As alterações da ordem direta:
As alterações da ordem “direta” receberam da retórica as denominações de hipérbato, anástrofe, sínquise, prolepse. Como a distinção entre umas e outras não coincide entre os autores nem costuma ser satisfatoriamente clara, é preferível ficar apenas com a denominação genérica de inversão. Esse processo rompe a monotonia da ordem usual, podendo favorecer um ritmo mais adequado ou propiciar um tom mais elegante; na poesia, pode atender à imposição da métrica ou da rima, além da intenção de ênfase.
Bally distingue a inversão afetiva da linguagem comum – um realce dado ao tema da frase - que é espontânea, natural, da inversão retórica, usada na poesia mais pomposa. São inversões de caráter afetivo, não estético, construções como:
É um encanto essa criança.
Bobo é ele.
Dinheiro eu não tenho.
Casar ele não quer.

Como exemplo de inversão artificial, própria da linguagem poética, mais elaborada, podem servir estes versos de Gonçalves Dias, que não chegam, entretanto, a ser obscuros:
“ O que nos resta pois? – Resta a saudade,
Que dos passados dias
De mágoas e alegrias
Bálsamo santo extrai consolador”
(Novos cantos, em Obras poéticas, t. 1. p. 33)

 CONCORDÂNCIA
Há dois tipos de concordância: a lógico-gramatical, estabelecida pela gramática normativa, e a estilística, que ultrapassa os limites da correção, a que atende a necessidades expressionais particulares, a que oferece a quem fala ou escreve possibilidades de escolha.
A concordância estilística pode ser:
 Concordância por atração: ocorre quando o adjetivo e o verbo concordam não com o termo que logicamente lhes determinaria as flexões, mas com um termo mais próximo e de maior importância no contexto e no espírito de quem fala ou escreve.
Ex.: “Vi um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade.” (M. de Assis)

 Concordância ideológica (ad sensum, sínese, sliepse) : as flexões assumidas pelo verbo ou pelo adjetivo não são compatíveis com os termos presentes na frase aos quais eles se prendem gramaticalmente, mas com a idéia que eles despertam na mente de quem fala ou escreve.
Ex.: “Consultemos o coração aqueles que o tivermos.” (Camilo)

 Concordância afetiva: a que se deve ao influxo da emoção.
Ex.: “ O compadre compreendeu tudo, viu que Leonardo abandonava o filho, uma vez que a mãe o tinha abandonado e fez um gesto como quem queria dizer: - Está bem, já agora... vá; ficaremos com uma carga às costas.”

• OUTROS EXEMPLOS DE CONCORDÂNCIA ESTILÍSTICA:
1. Estrelas era com ele. (Raul Pompéia, O Ateneu, p. 39)
2. (...) e o casal esqueceram que havia mundo. (M. de Andrade, Macunaíma, p. 56)
3. O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. (R. de Queiroz, 100 crônicas,p. 280)
4. Mas a gente é sertanejos, ou não é sertanejos? (G. Rosa, Grande Sertão, p. 295)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Estilística do Som




Também chamada de Fonoestilística, trata dos valores expressivos de natureza sonora observáveis nas palavras e nos enunciados. Fonemas e prosodemas (acento, entoação, altura e ritmo) constituem um complexo sonoro de extraordinária importância na função emotiva e poética, segundo Martins (2000).

ALITERAÇÃO e ASSONÂNCIA

É a repetição insistente dos mesmos sons consonantais (no início ou integrantes da sílaba tônica)

HOMEOTELEUTO e RIMA

Homeoteleuto: Repetição de sons no final das palavras; aparecimento de uma terminação igual em palavras próximas, sem obedecer a um esquema regular, ocorrendo ocasionalmente numa frase ou verso.

Eco: homeoteleuto não intencional, não estético, que se costuma considerar um vício de linguagem.

Rima: coincidência de sons, geralmente nos finais das palavras.

ANOMINAÇÃO

Consiste no emprego de palavras derivadas do mesmo radical – em uma mesma frase ou em frases mais ou menos próximas (ex.: sonho sonhado)

PARONOMÁSIA

Figura pela qual se aproximam palavras que oferecem sonoridade análoga com sentidos diferentes; é um jogo de palavras, um trocadilho (de que pode resultar um efeito humorístico). Ex.: “Tão mal cumprida tão mais comprida...”

ONOMATOPEIA

Reprodução de um ruído ou a tentativa de imitação de um ruído por um grupo de sons da linguagem. É a transposição na língua articulada humana de gritos e ruídos inarticulados.

HARMONIA IMITATIVA
Estende-se ao longo de um enunciado, de um fragmento de prosa, de um poema, e que resulta dum aglomerado de recursos expressivos: peculiaridades dos fonemas, repetições de fonemas, de palavras, de sintagmas ou frase, do ritmo do verso ou da frase.

ALTERAÇÕES FONÉTICAS

Metaplasmos – por supressão, acréscimo, por troca e por permuta. Ex.: arvre (árvore), aspro (áspero), pobrema (problema), güentar (agëntar), embonecrado (embonecado) etc. Correspondem a tendências ainda vigentes na língua, perceptíveis na fala popular e coibida na língua culta.

Aliterações fonéticas em autores regionalistas: acréscimo de fonemas no interior de vocábulo (murucego), o acréscimo de /s/ no final de certas palavras (nuncas); supressão de som nas várias partes dos vocábulos (dianta, manhecer); supressão da vogal átona (pré ou postônica) : escrafuncar (escarafunchar); forma diminutiva em –im (riachim, Passarim); troca de fonemas por vocalização, nasalação, dissimulação etc.; troca do [ r ] por [ l ] : militriz; permuta ou mudança de posição de fonemas, mais freqüentemente com o [ R ] como em enterter, agardecer.



ALTERAÇÕES FONÉTICAS NA POESIA

Crase (fusão de duas vogais iguais) : “Eu não espero o bem ...”

Elisão (desaparecimento da vogal final de uma palavra ante a vogal inicial da palavra seguinte: “Alma serena e casta...”). Sinalefa (fusão da vogal final de uma palavra, reduzida a semivogal, com a vogal inicial da palavra seguinte, formando um ditongo): “Tudo quanto afirmais...”

Ectlipse (elisão ou sinalefa de vogal nasal; restringe-se praticamente ao encontro da preposição com e o artigo, variando a grafia: com o, co’o, co)

Hiato entre vocábulos (usado pelos românticos, condenado pelos parnasianos, por deixar o verso frouxo, em certos casos realça determinada palavra ou obriga a se emitir o verso num tom pausado).


PROSODEMAS OU TRAÇOS SUPRASSEGMENTAIS

Acento – função distintiva – assim como a entoação, tem função intelectiva (frase afirmativa ou interrogativa, por exemplo) e prestam funções expressivas importantes. É o caso do acento de duração, que não tem função fonológica, mas expressiva, e na língua escrita pode ser marcada pela repetição de grafemas (rrrolar), por exemplo. Pode, ainda, haver a intensidade de pronúncia marcada em uma sílaba para expressar emoção, energia, duração inusitada (Ex.: Ela é maravilhosa!)
Entoação: é a curva melódica que a voz descreve ao pronunciar palavras, frases e orações. Um nome próprio, por exemplo, com diferentes entoações, pode ter múltiplos significados, que devem ajustar-se ao contexto. É a entoação que indica se as nossas palavras estão no sentido próprio ou no oposto, se estamos sendo sinceros ou irônicos.
Sinais de pontuação e entoação: ponto final, vírgula, ponto-e-vírgula, travessão, parênteses, ponto de interrogação, de exclamação, reticências sugerem diferentes inflexões, mas têm em comum a indicação de uma pausa, precedida de queda, suspensão ou elevação da voz. A supressão de sinais de pontuação esperados podem ter efeito estilístico, permitindo, inclusive, múltiplas leituras.

ORTOGRAFIA

O emprego das maiúsculas, por exemplo, que foge ao Acordo Ortográfico, pode sugerir respeito, admiração, sentimento religioso ou cívico, acatamento de autoridade (Pai, Mestre, Sacerdote, Pátria etc.). Da mesma forma, o uso da minúscula no início de nomes próprios expressa a subversão à ordem, o que tem um valor semântico específico, de acordo com o contexto.