Bem-vindos a Sociedades dos Poetas

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quarta-feira, 6 de março de 2013

Paráfrase




Passagem do Dois ao Três: Antônio Cândido

Neste texto, Antônio Cândido relata a fixação pelo número 2 pelos estruturalistas. Ele declara que: “A busca de modelos genéricos se associa nele a uma espécie de postulado latente de simetria, que o faz balançar entre cru e cozido, alto e baixo, frio e quente, claro e escuro, como se a ruptura da dualidade rompesse a confiança nele mesmo”.
Em sua visão, defende a idéia de que é através da análise interna, como ponto de partida para compreender melhor o externo. Opta, então, pelo 3. Afirma: “No entanto, há o pensamento do homem outros ritmos e outras implicações numéricas, como as que privilegiam o número 3. Não como expressão de um ponto neutro intercalado entre 1 e 1; mas como 1 mais 1 mais 1, em pé desigualdade, como elementos constitutivos da visão”.
Ele afirma que as divagações que foram motivadas pela idéia nas análises estruturalistas (o 2) desliza, ou deveria deslizar, para o 3. Reafirma que não se trata do 3 falso, mas o verdadeiro, no qual as unidades (reais ou virtuais) se encontram em pé de igualdade.
Cândido faz um comentário crítico sobre o estudo de Affonso romano de Sant’Ana, em O Cortiço. Este afirma que: “embora a posição do autor é bastante compreensiva e aberta, pressupondo uma dúvida constante em relação aos métodos”.
Affonso trabalha com uma visão que considera o texto como “opacidade”, ou seja, como sistema suficiente em si, que não filtra a realidade do mundo como instância explicativa (embora, evidentemente, possa filtrá-la como referente). A esta se oporia uma visão “ideológica”, que considera o texto como uma espécie de continuação do mundo e vai buscar elementos de análise.
Fechado estrategicamente no texto, Affonso romano de Sant’Ana procura examiná-lo nele mesmo, conforme os instrumentos de que dispõe. Neste intuito, utiliza categorias que refluíram da Antropologia sobre a Lingüística, depois de terem feito o caminho oposto, como: dualidade, simetria, oposição, equilíbrio, e suas alterações por meio da troca. No fundo, o conceito de entropia e, como princípio de interpretação, a oposição Natureza x Cultura (baseada na oposição cortiço-conjunto simples (= Natureza) X sobrado-conjunto Complexo (= Cultura), dinamizada pelo estudo das trocas ocorridas entre ambos), refletindo em parte os famosos Cru e Cozido de Levi-Strauss.
Antônio Cândido afirma: “O que pretendo é apenas tomar um dos seus aspectos básicos para levantar uma questão de métodos. Com vistas a este, proporei uma leitura diferente, que não deseja superar, mas apenas se situar ao lado de Afonso Romano de Sant’Ana. Uma questão de passar do 2 ao 3”.
Embora Cândido afirme achar útil a dicotomia Cortiço = Natureza X Sobrado = Cultura, declara ser incompleto. Ele trabalha mais a fundo nas descrições do ambiente físico, nas personagens e no significado de cada um deles, ligado à realidade em que se encontram no romance.
Ele focaliza certas relações concretas entre os personagens, a partir da sua ação, real ou potencial. Assim, quanto às relações humanas concretas, podemos ter, por exemplo: Adulto X Criança; Homem X Mulher; Brasileiro X Portugueses; Branco X “De cor” – todas baseadas em características “naturais”, não devidas originalmente à cultura. No universo do livro, a primeira e a segunda são irrelevantes; as outras são relevantes e dão lugar à formação de sistemas definidos de significados, sob o aspecto conceitual e metafísico, no plano individual e no coletivo. Procura saber informações mais profundas sobre os personagens. No entanto, Cândido relata que estas divisões são atenuadas por um terceiro elemento qualificador: a animalidade. O próprio Cortiço é caracterizado como argumento de animais, o que dá caráter coletivo aos traços de cada um. Assim, menciona que aquelas oposições binárias ditas acima são insuficientes como instrumento heurístico, porque em verdade há nelas um terceiro termo que medeia. Conclui que, não há brasileiro x português, ou branco X “de cor”; mas BRASILEIRO X PORTUGUÊS (ANIMAL) E BRANCO X DE COR (ANIMAL).
Assim, resume que o enfoque formal das oposições é importante, mas precisa ser aprofundado pelo enfoque das mediações como terceiro termo. N’O Cortiço, há duas categorias opostas de caráter topológico: Sobrado e Cortiço. Há três categorias relacionais que as medeiam e permitem ver qual é o significado real da sua oposição: duas reais, Portugueses e Brasileiros, uma virtual, animal (nos sentidos 2 e 3), que por sua vez as medeia. Há uma categoria informadora, real e simbólica ao mesmo tempo, a Natureza específica do Brasil, que é a mediadora suprema entre as outras categorias. Por motivo de espaço e oportunidade, ela não é tratada aqui.
De tal forma, para Antônio Cândido, a presença do português é, portanto, decisiva, enquanto alternativa ou antagonismo do brasileiro; de tal modo que um dos fatores determinantes da narrativa é o comportamento de um ou outro em face do Brasil, tomado essencialmente como Natureza, como disponibilidade que condiciona a ação e, portanto, o destino de cada um. Concluindo o seguinte:

– Português que chega e vence o meio;
– Português que chega e é vencido pelo meio;
– Brasileiro explorado e adaptado ao meio.

Por conseguinte, Antônio Cândido conclui a análise interna, como ponto de partida para compreender melhor o externo, agora, não como genérico, mas enquanto mundo, vida que nutre a obra. Assim, pode refazer o caminho em sentido inverso, como procurou sugerir pela análise do dito sentencioso. O dito pode também ser considerado, ao seu modo, um paradigma externo, pois representa a visão de um grupo, uma coletividade de pensamento. E a partir dele procurou construir um modelo de que desvende a estrutura interna, singular da obra. Há, portanto a possibilidade de um método reversível, que se move nos dois sentidos, e que supere o formal e o não-formal na medida em que chega a este partindo daquele e àquele partindo deste.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Entendendo...



1. Denotação e Conotação

Uma palavra ou signo compreende duas polaridades: o significado ( aspecto conceitual, a imagem mental abstrata) e o significante (aspecto concreto, gráfico, a imagem acústica). Assim, todas as palavras são signos, desde que apresentem essas duas faces.
Um mesmo signo pode apresentar significados diversos, conforme o contexto em que empregamos. O significado de uma palavra não é somente aquele dado pelo dicionário (denotativo), mas pode adquirir outros significados mais criativos (conotativo). A essa pluralidade de significados dá-se o nome de polissemia.
Por fim, se queremos ser objetivos no que redigimos, precisamos utilizar a linguagem denotativa – essa é a linguagem ao qual encontramos no dicionário. Já, quando queremos evocar ideias através do filtro da nossa emoção, da nossa subjetividade, temos a conotação, que corresponde a uma transferência do significado usual para um sentido figurado.



2. Figuras de Linguagem

Figuras de linguagem ou de estilo são sempre empregadas para valorizar o texto, tornando a linguagem mais expressiva.
As figuras revelam muito da sensibilidade de quem as produz, traduzindo particularidades estilísticas do autor.
A palavra empregada em sentido figurado, não denotativo, passa a pertencer a outro campo de significação mais amplo e criativo.
As figuras de linguagem classificam-se em:



ü  Figuras de palavra;
ü  Figuras sonoras ou de harmonia;
ü  Figuras de pensamento;
ü  Figuras de construção/sintaxe.



3. Figuras de Palavra

Consistem na utilização de um termo com sentido diferente daquele convencionalmente empregado, a fim de se conseguir um efeito mais expressivo na comunicação. São elas:



Comparação: Aproximação, entre dois seres semelhantes, ligados por conectivos (feito, assim como, tal qual, tal como, qual, que nem /e alguns verbos: parecer; assemelhar-se, etc.).

Metáfora: Comparação implícita, subjetiva (sem conectivos).



Metonímia: Substituição de uma palavra por outra, por haver entre ambas alguma semelhança.

Sinédoque: Substituição de um termo por outra com ampliação ou redução do sentido usual da palavra.

Catacrese: Metáfora desgastada.

Sinestesia: Combinação de sensações diferentes numa só impressão.

Antonomásia: designação de pessoas por uma qualidade, fato ou característica (ideia de aposto do nome próprio – apelido).

Alegoria: Acumulo de metáforas referindo-se ao mesmo objeto, intensificando seu significado.

4. Figuras Sonoras ou de Harmonia

São elas as quais os efeitos produzidos na linguagem quando há repetições de sons, ou, ainda, quando se procura imitar sons produzidos por coisas ou seres. São elas:

Aliteração: Repetição de fonemas consonantais idênticos ou semelhantes.

Assonância: Repetição de fonemas vocálicos idênticos ou semelhantes.

Paronomásia: Reprodução de sons semelhantes em palavras de significados diferentes.


Onomatopeia: Reprodução aproximada de um som.




5. Figuras de Pensamento

As figuras de pensamento são recursos de linguagem que se referem ai significado das palavras, ao seu aspecto semântico. São elas:



Antítese: Aproximação de palavras de sentido contrário.

Apóstrofe: Invocação de um ser real ou imaginário.

Paradoxo: Verdade enunciada com aparência de mentira.

Eufemismo: Expressão que suaviza uma verdade considerada penosa ou desagradável.

Gradação: Sequencia de palavras intensificando a mesma ideia.

 Hipérbole: Exagero de uma ideia.

Ironia: Pelo contexto, sugere-se o contrário do que os termos expressam.



Prosopopeia: Expressão que suaviza uma verdade considerada penosa ou desagradável.

Perífrase: Torneio de palavras para nomear acidentes geográficos, objetos, situações.

6. Figuras de construção/sintaxe

Dizem respeito a desvios em relação à concordância entre os termos da oração, sua ordem, possíveis repetições ou omissões. São elas:

Assíndeto: Palavras ou orações justapostas, sem conjunção.

Elipse: Omissão de um termo, expressão ou oração facilmente identificável.

Zeugma: Supressão de um termo já expresso na frase.

Anáfora: Repetição de palavras no início de frase ou verso.

Pleonasmo: Redundância de termos de mesmo significado.



Polissíndeto: Repetição enfática de conjunção coordenativa.

Anástrofe: Inversão simples de palavras vizinhas.

Hipérbato: Inversão complexa de membros da frase.

Sínquise: Inversão violenta dos termos da oração.

Hipálage: Inversão da posição do adjetivo (a qualidade de um objeto é atribuída a outro).

Anacoluto: Interrupção sintática da frase, deixando um ou mais termos soltos, sem função.

Silepse: Concordância com a ideia associada às palavras e não com estas.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Texto para Interpretação: A velha contrabandista


Leia o texto e responda às questões:




Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na mesma, com um bruto saco atrás do veículo. O pessoal da Alfândega – tudo malandro – começou a desconfiar da senhora.
Um dia, quando ela vinha em sua lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou-a parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou:
- Escute aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todos os dias, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva?
A senhora sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros que ainda adquirira no odontologista e respondeu:
- É areia!
Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. Ela saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à senhora que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.
Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e o outro com muamba, dentro daquele saco.
No dia seguinte, quando a mesma passou montada na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou para outra vez. Perguntou o que ela lavava no saco e ela respondeu que era areia! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas às vezes, o que ela levava no saco era areia.
Diz que foi aí que o fiscal se chateou:
- Olhe, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com quarenta anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando bastante. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.
- Mas o saco só tem areia! – insistiu a velhinha.
E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:
- Eu prometo à senhora que a deixo passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada à ninguém, mas a senhora vai me dizer qual é o contrabando que está passando por aqui todos os dias?
- O senhor promete que não espalha? – quis saber a velhinha.
- Juro! – respondeu o fiscal.
- É a lambreta!
(Stanislaw Ponte Preta)
Parte A:

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO


1. O que a velhinha carregava dentro do saco, para despistar o guarda? 

2. O que o autor quis dizer com a expressão “tudo malandro”? 

3. Leia novamente o 4º parágrafo do texto e responda: Quando o narrador citou os dentes que “ela adquirira no odontologista”, a que tipo de dentes ele se referia? 

4. Explique com suas palavras qual foi o truque da velhinha para enganar o fiscal. 

5. Quando a velhinha decidiu contar a verdade? 

6. Qual é a grande surpresa da história?