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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

GÊNEROS E TIPOS DE DISCURSO




CONSIDERAÇÕES PSICOLÓGICAS E ONTOGENÉTICAS, de Bernard Schneuwly

Autora: Heloisa Amaral

Fonte: SCHNEUWLY, B. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas, In. / tradução e organização ROJO, R.; CORDEIRO, G. S., Gêneros orais e escritos na escola, Campinas, SP: Mercado das Letras, 2004.

RESENHA

Bernard Schneuwly é professor de didática do ensino de língua na Universidade de Genebra, na Suíça, e vem desenvolvendo juntamente com outros professores, entre eles Joaquim Dolz, da mesma universidade, uma série de estudos sobre ensino e aprendizagem de língua. Neste artigo, escrito em 1994, Schneuwly fala dos aspectos psicológicos da aprendizagem (ou seja, da forma como pessoas aprendem) e de seus aspectos ontogenéticos (isto é, o desenvolvimento da capacidade de um indivíduo de adquirir conhecimentos desde a concepção até a idade adulta). Ou, dizendo de outra forma: o que aprendemos nas trocas com outros indivíduos, nas relações sociais, pode interferir em nosso desenvolvimento?Ou o desenvolvimento das pessoas é um fato biológico, independente das relações sociais? Se é um fato biológico, algumas pessoas são mais dotadas do que outras, já nascem com uma capacidade inicial que outras não possuem? Se são, podemos concluir que algumas pessoas nascem com "dom" para certas aprendizagens e outras não?
A reflexão sobre aprendizagem em geral que a questão do desenvolvimento que decorre da aprendizagem x desenvolvimento que ocorre naturalmente se aplica á capacidade de aprender dos indivíduos em qualquer disciplina. Em relação à aprendizagem da escrita, as questões são:
• O que se aprende socialmente interfere no desenvolvimento cognitivo?
• Aprender gêneros textuais - que é o modo como usamos a língua, nas situações de comunicação no dia-a-dia - amplia nossas capacidades de linguagem?
Ao discorrer sobre essas questões, o autor também procura demonstrar a diferença que vê entre gêneros e tipos de discurso. É um artigo muito importante para quem deseja esclarecer por que é necessário associar as tipologias usadas tradicionalmente na escola, como narração, descrição, dissertação (ou argumentação) ao ensino dos gêneros textuais, se deseja desenvolver as capacidades leitora e escritora de seus alunos.
Em outros artigos, Schneuwly e Dolz publicaram um quadro onde as tipologias são cruzadas com os gêneros. Desse quadro é possível deduzir que é tão importante ensinar as tipologias quanto os gêneros. As tipologias são capacidades de linguagem usadas em diferentes gêneros. Para os dois autores, há cinco tipologias que é preciso considerar no ensino de língua. Cada uma dessas tipologias é mobilizada pelas pessoas que se comunicam em diferentes gêneros, mas cada gênero exige um maior ou menor domínio de cada uma delas.
Narrar: capacidade de imaginar histórias de ficção e contá-las. Esta capacidade é usada principalmente na criação de contos, fábulas, romances etc.
Relatar: capacidade de descrever acontecimentos vividos pelo autor ou por outro. Esta capacidade é usada predominantemente na escrita de notícias, relatos de viagem, relatos de experiência vivida, diários íntimos etc.
Argumentar: capacidade tomar posição diante de um acontecimento e sustentar sua posição, refutar a posição de outros, negociar com oponentes. Esta capacidade é usada principalmente em debates orais, artigos de opinião, cartas de leitor etc.
Expor: capacidade de registrar e demonstrar conhecimentos, saberes, obtidos por meio de estudos e pesquisas. Esta capacidade é usada, predominantemente, em conferências, artigos científicos, verbetes de enciclopédia, seminários etc.
Descrever ações: capacidade de dar instruções e fazer prescrições. Esta capacidade é usada predominantemente em receitas culinárias, regulamentos, regras de jogo, receitas médicas etc.
É importante considerar que usamos todas essas capacidades em gêneros diversos. Por exemplo, num conto, usamos predominantemente a capacidade de narrar, mas podemos colocar personagens discutindo um assunto, e então aparecerá a capacidade de argumentar.
Para o autor, essas capacidades todas são mobilizadas nos gêneros textuais que circulam socialmente que, por isso, são ótimos instrumentos para ensinar e aprender língua. Quanto mais gêneros são apropriados, mais capacidades de usar a língua.
Para esclarecer como os gêneros são instrumentos privilegiados para a aprendizagem, Schneuwly considera que toda a aprendizagem se dá não individualmente, mas nas interações sociais. No caso, o autor se refere principalmente à aprendizagem de língua (e dos gêneros, evidentemente). O autor considera que língua só existe na interação, na comunicação entre pessoas. Quando dizemos um simples bom dia, por exemplo, estamos usando palavras que são um recurso para cumprimentarmos alguém, recurso esse que foi construído ao longo da história da humanidade, nas relações sociais. Então, os gêneros de discurso são objetos que usamos para nos comunicar, instrumentos de comunicação socialmente elaborados ou, dizendo de outra maneira, instrumentos da comunicação entre as pessoas. Mas o instrumento só é útil como mediador se o sujeito se apropriar dele:
O instrumento, para se tornar mediador, para se tornar transformador da atividade, precisa ser apropriado pelo sujeito; ele não é eficaz senão à medida que se constroem, por parte do sujeito, os esquemas de sua utilização.
Quando nos comunicamos, mobilizamos três elementos:
1. Escolhemos um gênero em função dos elementos que compõem as situações de comunicação: o que eu quero dizer, para quem vou dizer, como vou dizer, onde vou dizer (na fala direta da comunicação oral, em meio familiar ou outra situação do dia-a-dia, ou em meios de comunicação que usam escrita ou fala fundamentada na escrita, como rádio e TV, por exemplo).
2. A partir dessa base (o que, para quem, como, onde), a pessoa escolhe o gênero que vai usar. Por exemplo, se vai falar com a família, usa, em geral, gêneros familiares; se está numa situação profissional, usa gêneros próprios de sua área de atuação. Cada área profissional tem seus gêneros próprios, ou seja, seu modo particular de dizer coisas. É fácil verificar ao pensarmos, por exemplo, nas áreas médica, jurídica ou de informática: cada uma tem sua linguagem própria.
3. Os gêneros, então, têm uma base fixa que depende da situação de comunicação em que são usados e que nos permitem reconhecê-los e escolhê-los: ao encontrar alguém, sabemos que é preciso fazer os cumprimentos de praxe; ao dar uma aula, sabemos que temos que dar informações, explicações e realizar atividades de aprendizagem e avaliação. No entanto, a cada vez que cumprimentamos alguém ou damos uma aula, há aspectos novos no gênero usado para a comunicação. Mesmo que eu dê aula sobre um mesmo conteúdo, por exemplo, quando mudo de sala, a aula nunca fica igual.
Schneuwly prossegue explicando a diferença entre gêneros primários, aqueles que são apreendidos espontaneamente, e gêneros secundários, aqueles mais complexos elaborados, que precisam de sistematização para ser apreendidos. Explica como os gêneros secundários são importantes para o desenvolvimento das capacidades de linguagem dos indivíduos. Ele também afirma que sem o domínio dos gêneros primários – aqueles adquiridos espontaneamente no convívio social, como a conversa familiar – não é possível apropriar-se dos gêneros secundários.
“O novo sistema não anula o precedente, nem o substitui. Isto significaria que todo o trabalho já realizado não teria valido de nada e que seria necessário, por assim dizer, recomeçar a cada vez. (...) De fato, mesmo sendo profundamente diferente, o novo sistema apóia-se completamente sobre o antigo em sua elaboração, mas, assim fazendo, transforma-o profundamente.
Ao afirmar isso, o autor considera que as funções psicológicas inferiores da inteligência humana são a base da constituição das capacidades superiores. Quando o indivíduo, nas interações sociais, desenvolve novas capacidades, as primeiras não deixam de existir, mas são absorvidas pelas mais elevadas. O novo nível supera o antigo, incorporando o antigo.
Para ele, é próprio da espécie humana desenvolver-se cada vez mais à medida que cria novos instrumentos. A partir de instrumentos criados, a humanidade pode criar instrumentos cada vez mais complexos. Como os gêneros textuais são considerados instrumentos (de comunicação) estão nesse caso. É preciso que a criança se aproprie socialmente dos gêneros primários e, em seguida, dos gêneros secundários. É nessa apropriação que suas capacidades de linguagem se desenvolvem plenamente.

Se desejar saber mais, leia o artigo na íntegra em:

SCHNEUWLY, B. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas, In. / tradução e organização ROJO, R.; CORDEIRO, G. S., Gêneros orais e escritos na escola, Campinas, SP: Mercado das Letras, 2004.
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24/04/2008 site www.escrevendo.cenpec.org.br

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