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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Literatura: Castro Alves e Manuel Bandeira - Uma vida em comum (ensino médio)




Manuel Bandeira

Biografia

Filho do engenheiro Manuel Carneiro de Sousa Bandeira e de sua esposa Francelina Ribeiro, era neto paterno de Antônio Herculano de Sousa Bandeira, advogado, professor da Faculdade de Direito do Recife e deputado geral na 12ª legislatura. Tendo dois tios reconhecidamente importantes, sendo um, João Carneiro de Sousa Bandeira, que foi advogado, professor de Direito e membro da Academia Brasileira de Letras e o outro, Antônio Herculano de Sousa Bandeira Filho, que era o irmão mais velho do engenheiro Sousa Bandeira e foi advogado, procurador da coroa, autor de expressiva obra jurídica e foi também Presidente das Províncias da Paraíba e de Mato Grosso.
Seu avô materno era Antônio José da Costa Ribeiro, advogado e político, deputado geral na 17ª legislatura. Costa Ribeiro era o avô citado em Evocação do Recife. Sua casa na rua da União é referida no poema como "a casa de meu avô".
Em 1904 terminou o curso de Humanidades e foi para São Paulo, onde iniciou o curso de arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo, que interrompeu por causa da tuberculose. Para se tratar buscou repouso em Campos do Jordão, Campanha e outras localidades de clima mais ameno. Com a ajuda do pai que reuniu todas as economias da família foi para Suíça, onde esteve no Sanatório de Clavadel, onde conheceu o jovem Paul Eugene Glidel, que mais tarde se tornou conhecido poeta francês sob o nome de Paul Eluard, e Gala, que foi esposa de Paul Eluard e posteriormente esposa de Salvador Dali.
Manuel Bandeira faleceu no dia 13 de outubro de 1968 com hemorragia gástrica aos 82 anos de idade.

Castro Alves
Biografia

Sua mãe faleceu em 1859. O pai se casou por segunda vez em 24 de janeiro de 1862 com a viúva Maria Rosário Guimarães. No dia seguinte ao do casamento, o poeta e seu irmão Antônio José partiram para o Recife, enquanto o pai se mudava para o solar do Sodré.
Em maio, submeteu-se à prova de admissão para o ingresso na Faculdade de Direito do Recife sendo reprovado.
No dia 17 de maio, Castro Alves publicou no primeiro número de A Primavera seu primeiro poema contra a escravidão: A canção do africano. A tuberculose se manifestou e em 1863 teve uma primeira hemoptise.
Em 1864 seu irmão José Antônio, que sofria de distúrbios mentais desde a morte de sua mãe, suicidou-se em Curralinho. Ele enfim consegue matricular-se na Faculdade de Direito do Recife e em outubro viaja para a Bahia. Só retornaria ao Recife em 18 de março de 1865, acompanhado por Fagundes Varela.
Em 1866, tornou-se amante de Eugênia Câmara. Desfaz-se em 28 de agosto de 1868 sua ligação com Eugênia Câmara. Castro Alves foi aprovado nos exames da faculdade de Direito e a 11 de novembro - tragédia de grandes consequências - se feriu no pé, durante uma caçada. Tuberculoso, aventara uma estadia na cidade de Caetité, onde moravam seus tios e morrera o avô materno. Mas, antes disso, ainda em São Paulo, na tarde de 11 de novembro, resolveu realizar uma caçada na várzea do Brás e feriu o pé com um tiro. Disso resultou longa enfermidade, cirurgias, chegando ao Rio de Janeiro no começo de 1869, para salvar a vida, mas com o martírio de uma amputação. Os cirurgiões e professores da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Andrade Pertence e Mateus de Andrade, amputaram seu membro inferior esquerdo sem qualquer anestesia.
Em março de 1869, matriculou-se no quarto ano do curso jurídico, mas a 20 de maio, tendo piorado seu estado, decidiu viajar para o Rio de Janeiro, onde seu pé foi amputado em junho.
Em fevereiro de 1870 seguiu para Curralinho para melhorar a tuberculose que se agravara, viveu na fazenda Santa Isabel, em Itaberaba. Em setembro, voltou para Salvador. Ainda leria, em outubro, A cachoeira de Paulo Afonso para um grupo de amigos, e lançou Espumas flutuantes.
Morreu às três e meia da tarde, no solar da família no Sodré, Salvador, Bahia, em 6 de julho de 1871.

Castro Alves e Manuel Bandeira

Após leitura e análise da vida e obra destes dois escritores, e surpreendentes poetas brasileiros, percebemos a vida em comum de ambos. Tanto Castro Alves, como Manuel Bandeira sofriam do mesmo mal – a tuberculose.
Assim, também, Ambos escreveram sobre uma certa mulher por nome Teresa. Semelhanças? Ambos os poemas registram três momentos entre o poeta e sua Teresa; ambos apresentam Teresa em diferentes situações de sua vida.
A partir daí começam os pontos divergentes que ainda mais aproximam os dois poemas. Enquanto a linguagem de Castro Alves é trabalhada, a de Manuel Bandeira é intencionalmente simples; enquanto Castro Alves registra a perda amorosa, Manuel Bandeira apresenta o encontro. Veja-se que trilham caminhos opostos. Castro Alves, romântico, constrói uma ambiência de sonho a envolver a figura feminina; Manuel Bandeira, modernista, emprega uma linguagem despojada e nada acrescenta alem da figura da mulher que se revela a seus olhos.
Na diferença, a semelhança. Não uma diferença qualquer, mas uma diferença pontuada, intencional: o relato de um encontro, não o de um desencontro.
Em ambos os poemas, a exploração do tempo, apresentado em ordem cronológica, para marcar o processo gradual dos momentos narrados.
Assim, Conforme Alfredo Bosi (1994, p.120), Antônio Frederico de Castro Alves (Bahia, 1847-1871), poeta do Romantismo brasileiro, começa a se fazer conhecido em 1865, época da decadência do Brasil puramente rural e do crescimento da cultura urbana associada a ideais democráticos. Segundo o teórico, devido a essas transformações, mudam também os modelos poéticos. Apesar do intimismo de Lamartine e de Musset continuarem como fonte de inspiração, é a sátira inovadora de Vitor Hugo que determina a nova tendência. Para Bosi (1994, p.120), o que torna Castro Alves um “poeta novo” é sua posição libertária e também a clareza com que expressa seu fascínio pela mulher amada. O poeta, afirma Bosi (1994, p.120), proporciona uma lírica erótica mais forte, limpa e menos culposa. Em “O ‘Adeus’ de Teresa”, Castro Alves, exterioriza, de forma bastante clara, fortes sentimentos amorosos:

O ‘Adeus’ de Teresa
Antônio de Castro Alves

1 A vez primeira que eu fitei Teresa,
2 Como as plantas que arrasta a correnteza,
3 A valsa nos levou nos giros seus...
4 E amamos juntos... E depois na sala
5 “Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...
6 E ela, corando, murmurou-me: ‘adeus’.
7 Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
8 E da alcova saía um cavaleiro
9 Inda beijando uma mulher sem véus...
10 Era eu... Era a pálida Teresa!
11 ‘Adeus’ lhe disse conservando-a presa...
12 E ela entre beijos murmurou-me: ‘adeus!’
13 Passaram-se tempos... sec’los de delírio
14 Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
15 ... Mas um dia volvi aos lares meus.
16 Partindo eu disse _ ‘Voltarei!... descansa!...’
17 Ela, chorando mais que uma criança,
18 Ela em soluços murmurou-me: ‘adeus!’
19 Quando voltei... era o palácio em festa!...
20 E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
21 Preenchiam de amor o azul dos céus.
22 Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
23 Foi a última vez que eu vi Teresa!...
24 E ela arquejando murmurou-me: ‘adeus!’


De acordo com a tradição romântica, Castro Alves preocupa-se com a questão formal de seu poema. Faz uso de versos decassílabos com rimas externas e consoantes, do tipo emparelhadas, sendo que os versos 3, 6, 9, 12, 15, 18, 21 e 24 apresentam rimas alternadas entre si.
O poema de Castro Alves relata o processo de conhecimento e descoberta amorosa entre o eu-lírico e Teresa até chegar ao rompimento dessa relação. Cada uma das quatro estrofes, em seu primeiro verso, apresenta uma marca de tempo referente ao romance entre o casal:

A vez primeira que eu fitei Teresa (V.1)
Uma noite... entreabriu-se um reposteiro... (V.7)
Passaram tempos... sec’los de delírio (V.13)
Quando voltei... era o palácio em festa!... (V.19)

A primeira estrofe do poema, ao referir-se ao primeiro encontro, evidencia um forte envolvimento amoroso, arrebatador como a correnteza e envolvente como os giros da valsa. Como as plantas que arrasta a correnteza, A valsa nos levou nos giros seus... (versos 2, 3)
No segundo momento em que o sujeito-lírico e Teresa se encontram no poema de Castro Alves, o amor entre o casal concretiza-se através do ato sexual, como é possível de se observar nos seguintes versos (o grifo foi para destacar):

‘Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!’ (versos 7-10)

O terceiro momento de encontro dos amantes é quase eternizado pelo eu-lírico, sugerindo que nesse período os encontros foram muitos e de grande intensidade:

Passaram-se tempos... sec’los de delírio (V.13)
Prazeres divinais... gozos do’ Empíreo... (V.14)

No poema de Castro Alves há ainda um quarto momento. Nesse, ocorre ruptura da relação amorosa − de acordo com o olhar do eu poético, Teresa está enamorada de outro homem: “Foi a última vez que eu vi Teresa!...” (V. 23)
As quatro maneiras distintas de Teresa portar-se durante as despedidas – “corando” (V.6), “entre beijos” (V.12), “em soluços” (V.18) e “arquejando” (V.24) – revelam a trajetória da relação. Há um processo de evolução: “corando” (V.6) para “entre beijos” (V.12); seguido de declínio: “em soluços” (V.18) para “arquejando” (V.24). Portanto, de um amor repentino para a realização amorosa e desta para o distanciamento e desilusão. Situação própria do estilo de época a que Castro Alves é contemporâneo – o Romantismo. Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 1886 – Rio, 1968), em seu poema moderno intitulado “Teresa”, estabelece relações de intertextualidade com o poema “O ‘Adeus’ de Teresa” de Castro Alves ao também relatar o processo de conhecimento e descoberta amorosa entre o eu poético e Teresa:

Teresa
Manuel Bandeira

1 A primeira vez que vi Teresa
2 Achei que ela tinha pernas estúpidas
3 Achei também que a cara parecia uma perna
4 Quando vi Teresa de novo
5 Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
6 (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
7 Da terceira vez não vi mais nada
8 Os céus se misturaram com a terra
9 E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Com o poema “Teresa”, Bandeira apresenta uma nova visão do romance cantado por Castro Alves; faz uso de lirismo irônico e transformador. Em Estrutura da Lírica Moderna,
Hugo Friedrich (1978, p.17) enfatiza que “transformar” é o comportamento que domina a poesia moderna no que diz respeito tanto ao mundo como à língua. Segundo Friedrich (1994, p.18-19), os poetas, ao se libertarem do estilo convencional − que satisfaz o hábito do leitor −, adquirem mais intensidade em seu fazer poético e, quanto maior for a “libertação do poeta”, maior será a incompreensibilidade de sua poesia. O que para o teórico é uma primeira característica da vontade estilística.
Alfredo Bosi (1994, p.438) destaca que, no movimento modernista brasileiro, a poesia foi o gênero literário que sofreu alterações mais radicais. De acordo com o teórico, Manuel Bandeira, junto com Mário de Andrade e Oswald de Andrade deram à poesia um novo vigor com o rompimento dos padrões tradicionais e o uso de formas livres.
Em “Teresa”, há liberdade na forma e linguagem − características modernas. No poema em estudo, a pontuação ocorre apenas no último verso da produção poética, a linguagem empregada é coloquial e a temática amorosa é “recheada” com termos prosaicos.
Condições que geram um impacto no leitor convencional, pois o lirismo usado por Castro Alves é desconstruído por Bandeira, alterando a imagem de Teresa já há muito tempo construída.
Bandeira compõe seu poema “Teresa” com nove versos livres, distribuídos em três tercetos. O esquema rítmico é variado, os versos 1, 7 e 8 são eneassílabos. O verso 8 pode também ser aceito como decassílabo heróico, conforme mostram os exemplos a seguir:
V.1: 9 (3-5-7-9-)
V4: 8 (3-5-8-)
V.7: 9 (3-5-7-9)
V.8: 9 (6-9) ou 10 (6-10)
O poema não apresenta rimas consoantes, apenas toantes e internas:
Versos 1, 2, 3: VI, Tinha, pareCIa;
Versos 4, 5, 6: Novo, CORpo;
Versos 7, 8, 9: NAda, mistuRAram, Águas.
As marcas de tempo também estão presentes no poema de Bandeira. São três os encontros do casal relatados pelo eu-lírico e em cada um dos encontros o tempo transcorrido provoca alterações nas impressões que o eu-poético nutre em relação à Teresa. Igualmente são três os versos que compõem cada uma das três estrofes, sendo que o primeiro verso de cada estrofe é responsável pelas indicativas de tempo.

A primeira vez que vi Teresa (V.1)
Quando vi Teresa de novo (V.4)
Da terceira vez não vi mais nada (V.7)

O primeiro encontro entre o eu-lírico e Teresa é bastante frio, banal, chegando a ser irônico, pois ele a vê fragmentada (pernas, cara). Considera suas pernas e sua cara estúpidas, para isso o sujeito poético lança mão de figuras de linguagem distintas:
V.2: Achei que ela tinha pernas estúpidas _ metáfora
V.3: Achei que a cara parecia uma perna _ comparação
A comparação estabelecida entre a cara e a perna reforça a metáfora anterior, pois se a perna é estúpida, a cara segue a mesma classificação, o que denota certo grau de infantilidade de Teresa perante o olhar do eu poético. Aparentemente, Teresa não desperta no sujeito-lírico sentimento amoroso ou mesmo atração carnal enquanto mulher.
Na segunda estrofe do poema de Manuel Bandeira, o eu poético amadurece a imagem infantil e ingênua que teve no primeiro encontro ao sentir os olhos de Teresa mais velhos que o corpo. Destaca-se, então, a idéia de tempo transcorrido, capaz de realizar mutações tanto no campo físico como no campo sentimental. Para expressar essas idéias, novamente o poeta faz uso de figuras de linguagem: Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo (V.2). Olhos muito mais velhos que o resto do corpo – comparação.
Comparando os olhos com o corpo, percebe-se que os olhos representam sensualidade, maturidade, o que o corpo de Teresa ainda não desperta no poeta. Olhos velhos – metáfora
Mas a imagem ingênua que Teresa desperta no eu-lírico devido ao seu corpo é substituída por uma impressão de Teresa mulher em função da percepção que o eu poético tem do seu olhar. Nessa situação, o eu-lírico mantém impressões contraditórias a respeito de Teresa. Ao mesmo tempo em que a vê mulher através de seus olhos, não a percebe sensual ao
bservar seu corpo. Olhos versus corpo – metonímia – e olhos versus corpo – antítese.
Através da antítese, torna-se latente a idéia de tensão, ruptura, inquietude e desencontro do eu-poético. Ele perturba-se ao perceber que alimenta sentimentos contraditórios e desarmônicos perante seu objeto de desejo. Então, abre parênteses e dá uma explicação da situação antitética que ora vivencia – verso 6: “(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)”.
Entretanto, ao finalizar seu poema, Bandeira lança mão de grande lirismo e realça momento de profundo sentimento amoroso. O lirismo intenso dá-se através da linguagem e da alusão que o poeta faz à religião, ausente nos momentos anteriores. A fusão do espiritual com o material rompe com o estilo moderno de desapego sentimental até ali apresentado. Esse momento forte efetiva-se com as expressões “céu” e “terra” (V. 8); “o espírito de Deus” e “a face das águas” (V.9).

Os céus se misturaram com a terra (V.8)
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas. (V.9)

A drástica mudança no olhar do sujeito lírico desencadeada no terceiro encontro do casal, possivelmente gere um novo desconforto no leitor já envolvido pelo enfoque autoirônico até aquele momento empregado pelo poeta. Mas, conforme Bosi (1994, p.361), o fato de Bandeira adotar uma poesia de libertação das regras e temas anteriormente empregados, não significa que o poeta esteja totalmente desapegado de romantismo.







Uma breve Conclusão...

Assim, após realizar esse estudo comparado entre poemas de épocas diferentes, salienta-se a evolução do estilo romântico até chegar à modernidade. A ironia presente no poema de Bandeira demonstra o desapego à ideia de doação total ao amor, mas não a negação desse sentimento. Em “Teresa”, Manuel Bandeira trabalha o prosaico e o cotidiano entrelaçado com o sublime e o poético. Paralelismo que pode ser percebido na primeira e segunda estrofe (prosaico, cotidiano) com a terceira estrofe (sublime, poético), é o moderno reescrevendo o romântico.
Por conseguinte, podemos dizer que Manuel Bandeira, em brincadeira poética com os versos de "O Adeus de Teresa", poema de Castro Alves. A intenção era fazer uma "tradução para o moderno", 1925.

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