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sábado, 8 de outubro de 2011

A Estilística da frase - Parte II





Na sintaxe, quem fala ou escreve escolhe entre os tipos de frase, de acordo com as regras gramaticais, mas esse processo é, sobretudo, uma atividade criadora e, portanto, pertence tanto ao domínio gramatical quanto ao domínio estilístico.

A frase veicula valores expressivos em potencial nas palavras, que adquirem seu sentido explicitado e o seu tom particular – neutro ou afetivo. À Estilística interessa tanto a combinação das regras estabelecidas pela norma gramatical quanto os desvios dela que constituem traços originais e expressivos.

Como unidade de comunicação, a frase exprime um sentido, encerra um conteúdo, que corresponde à sua função. Daí a classificação em: declarativa (em que o emissor exprime um fato que a seu juízo é verdadeiro ou falso; marcada por entonação descendente que corresponde ao ponto final), exclamativa (que realiza a função emotiva, em que o falante deixa transparecer sentimentos variados, com entonação ascendente), imperativa (que realiza a função apelativa, em que o falante exprime um fato desejável ou indesejável numa ordem, num pedido, numa súplica), interrogativa (é simultaneamente emotiva e apelativa, de entonação variável conforme tenha ou não palavra interrogativa).

Denomina-se, geralmente, oração a frase de estrutura binária (sujeito + predicado). Portanto, a frase pode ou não ser oração, ser completa e incompleta, explícita e implícita. O mais comum, porém, é que um discurso se constitua de mais de uma frase, havendo entre elas elementos de coesão como conjunções, vocábulos anafóricos, elipse, vocábulos repetidos, sinônimos ou pertencentes a um mesmo campo de significação.

A frase completa pode ser :
 Simples: apenas um verbo principal, que pode ser de significação gramatical ou de significação nocional.

Verbo de significação gramatical é o verbo de ligação ou copulativo, que integra o predicado nominal (cuja palavra significativa é um nome).
As frases de predicado nominal podem ter valor intelectual quando exprimem um fato, uma classificação, uma definição ou uma descrição objetiva.
Exs.: O sol é uma estrela.
A terra é redonda.

As frases de predicado nominal têm valor emotivo quando se prestam à expressão de julgamento de valor.
Ex.: A vida é bela.
Ou quando veiculam imagens que constituem definições fantasiosas, modos pessoais de interpretar a realidade.
Ex.: O campo é o ninho do poeta.

Os verbos de significado nocional, extralingüístico, podem ficar restritos ao sujeito ou estabelecer uma relação entre o sujeito e outro ser, conforme sejam intransitivos ou transitivos.
Nas frases de verbo intransitivo fala-se de um sujeito isolado, cuja ação fica restrita a ele próprio, não se estendendo a outros seres ou ao seu ambiente. São os verbos que exprimem os fenômenos existenciais (viver, nascer, crescer, morrer, sofrer), manifestações emocionais (chorar, rir, suspirar, gemer), processos mentais (pensar, sonhar, raciocinar) ou emissões de voz (gritar, falar, cantar, rosnar, latir, balbuciar); ainda se incluem nesse grupo verbos de movimento, podendo-se indicar ou não o lugar em que se dá a deslocação do sujeito (ir, chegar, caminhar, correr, dançar, nadar, voar, pular, fugir, viajar).
Nas frases de verbo transitivo já temos o sujeito relacionado a outro ser – o objeto; o ser denotado pelo sujeito projeta-se sobre o ser denotado pelo objeto. As frases com verbo transitivo exprimem o dinamismo da vida, com seres em todos os tipos de relacionamento – físico, emocional, social.
Exs.:
As plantas produzem alimentos.
O ladrão arrombou o cofre.
O vento derrubou a rosa.
Os pais amam os filhos.

Frases com verbos transitivos têm a função de comunicar o que se passa num mundo em que os seres atuam uns sobre os outros, e de cuja atividade resultam produtos e efeitos que se refletem na vida de uns e outros.

Um tipo de predicado complexo, simultaneamente verbal e nominal, é o que se pode explicar como resultado da fusão de dois predicados ou de duas orações.
Exs.:
As crianças brincavam contentes.(As crianças brincavam ./ As crianças estavam contentes)
Encontrei Maria doente. (Encontrei Maria./ Maria estava doente.)

O adjetivo predicativo do sujeito alterna freqüentemente com o advérbio, tirando os estilistas proveito dessa dupla possibilidade.
Ex.:
“A neve caía, levemente.”
“A neve ia caindo direta e vaga....”
“A neve caía triste.”
“A neve caía desfeita e branca.”
“A neve caía, contínua, silenciosa.”

Também entre o sujeito e o verbo dos vários tipos de frase existe a possibilidade de haver ou não uma pausa. Isso quer dizer que a ligação entre os dois elementos da frase pode apresentar graus, variando a estrutura rítmica.Ex.:
O menino brincava.
O menino, brincava. / O menino, ele brincava.

Freqüentemente a segmentação é acompanhada de uma inversão e de um pleonasmo: “Ele é meio esquisito, este menino.”A segmentação é um procedimento eminentemente expressivo, em que ambas as partes ganham relevo e é usual na língua falada. Qualquer termo, além do sujeito, pode ser destacado na oração, tornando-se tema do enunciado.

 Complexa: Como os termos da oração, as orações que entram numa frase também apresentam maior ou menor grau de dependência e coesão.

 Coordenação: orações que se apresentam uma após outra, cada qual com independência de construção, uma não fazendo parte da outra.
- Coordenação Assindética: coesão entre elas é de natureza semântica, sem vocábulo com função específica de estabelecer nexo. Ex.: O professor falava, os alunos ouviam.
A construção assindética é mais comum na língua oral, tem um tom mais espontâneo, menor rigor lógico; é mais ágil, sugere a simultaneidade ou rápida seqüência dos fatos. É construção apreciada por Graciliano Ramos.

- Coordenação Sindética: a coesão entre as orações é reforçada por um nexo – a conjunção coordenativa. A conjunção mais freqüente é e, cujo valor fundamental é reunir fatos que se acrescentam (aditiva),mas pode estabelecer várias outras relações que se apreendem pela própria significação das orações.

De cunho estilístico, a ausência de conjunção denomina-se assíndeto e a repetição a partir da segunda oração, polissíndeto (construção enfática, visto que destaca cada uma das orações).

Monteiro Lobato , concluindo a descrição do salão de baile do Príncipe Escamado, associa o polissíndeto a um tipo de repetição encadeada (cujo nome retórico é anadiplose) para obter o máximo de ênfase:
“ O salão parecia um céu aberto (...) Flores em quantidade trazidas e arrumadas por beija-flores. Tantas pérolas soltas no chão que até se tornava difícil o andar. Não houve ostra que não trouxesse a sua pérola, para pendurá-la num galhinho de coral ou jogá-la ali como se fosse cisco. E o que não era pérola, era flor e o que não era flor era nácar, e o que não era nácar era rubi e esmeralda e ouro e diamante. Uma verdadeira tontura de beleza!” (Reinações de Narizinho, em Obras Completas, p. 21)

 Subordinação: relação de dependência ou regência. A oração subordinada é um termo da oração subordinante, equivalendo a um substantivo, ou adjetivo, ou advérbio.
Os termos parataxe e hipotaxe são geralmente usados como sinônimos de coordenação e subordinação. No dicionário de Lingüística de Dubois, porém, a parataxe corresponde ao processo sintático em que não se procede ao encaixe de uma frase na outra, nem há coordenação de uma em relação à outra. Portando, a parataxe tanto compreende os casos de coordenação assindética, como os casos em que uma construção formalmente coordenada (ou justaposta) estabelece uma relação de dependência (causa, conseqüência, por exemplo) que poderia ser expressa por subordinação. O termo hipotaxe não coincide com subordinação, mas corresponde à explicitação da relação de dependência por uma partícula.

Por coordenação, temos:
- orações justapostas (parataxe): “Falou, falou, nada disse.”
- orações ligadas por e : “Fez muitos benefícios e só recebeu ingratidão.”
- orações ligadas por conjunção adversativa: “A moça tinha mais qualidades, mas faltava-lhe a principal: a bondade.”
Por subordinação, temos orações chamadas concessivas , que podem ter formulação bastante variada, com diferentes graus de intensidade e índice de ocorrência.

- com a conjunção embora ou equivalentes (ainda que, mesmo que, se bem que, posto (que), apesar de que). “Embora sofra muito, não se queixa.” Machado de Assis gostava muito da construção com posto, seguido ou não de que. (“O código, posto que velho, valia por trinta novos...”)

- com verbo no infinitivo precedido de preposição: apesar de, a despeito de, não obstante, com, sem. “Apesar de ter tudo, não é feliz.” A construção com com é mais literária, clássica. “Com ser um país muito extenso, o Brasil não é uma potência.”

- com verbo no gerúndio, geralmente precedido de alguma palavra que explicite a idéia de oposição. “Sendo eu seu amigo, não confia em mim.”

- o verbo de ligação ou o auxiliar podem ser omitidos, ficando apenas o predicativo. “Torturado embora, não denunciou os companheiros.”

- com predicativo anteposto + que + verbo de ligação no subjuntivo, temos uma construção enfática: “Pobres que sejamos, sempre temos alguma coisa para dar.”

- com intensificadores como por mais que, por menos que, por muito que, por pouco que, constroem-se também frases em que a oposição é bastante enfatizada: “Por mais que me expliquem esse problema, não consigo entendê-lo.”

A preferência por períodos mais curtos ou mais amplos depende do gosto pessoal do escritor, do estilo da época ou do gênero de composição. O período solene, em que se encadeiam múltiplas orações, em que se desfiam enumerações, rico de modulações, atende melhor à grandiosidade da epopéia ou à veemência apelativa da oratória. O período breve é mais concorde com a simplicidade do texto didático, com a espontaneidade das manifestações emotivas ou com a vivacidade dos diálogos, com o tom despretensioso da crônica.

 FRASE INCOMPLETA
Há frases que não se estruturam em sujeito e predicado. Trata-se da frase incompleta, também denominada inorgânica, inarticulada, elíptica. O seu entendimento exige certos dados contidos na situação de enunciação ou no contexto lingüístico.
A frase incompleta pode apresentar vários graus de implicitação e de afetividade. Partindo das frases com menos elementos implícitos para as mais condensadas, temos:

 Frases de dois membros (dirremas). Bastante corriqueira é a construção do tipo: Bonita, esta menina, que exprime o mesmo fato da frase completa: Esta menina é bonita.
Muitos provérbios e frases sentenciosos têm a sua expressividade realçada por essa construção, a ausência de verbo tornando-os atemporais, de valor permanente, universal. Assim, Cada macaco em seu galho é mais impressivo que seria Cada macaco deve ficar em seu galho.
Muitas das frases desse tipo apresentam um paralelismo que acentua uma idéia implícita de causa, conseqüência, oposição, tempo etc.

 Frases de um só membro (monorremas), cujo sentido se completa com um segundo membro não expresso mas inerente no contexto ou na situação.
Encontramo-las em:
- informações sumárias, avisos, anúncios:
Fechado para almoço.
Rua sem saída.
As frases desse tipo têm função referencial e conativa: comunicam e advertem.

- ordens, proibições, advertências (função conativa predominante):
Silêncio.
Atenção.

- títulos de obras, matérias jornalísticas etc.
Dom Casmurro. O Pensador.
“Queda da inflação.” “Os menores abandonados”

- anotações sucintas:
Cartas por responder. Ofícios enviados.
Chuva. Tédio. Solidão.

- saudações, fórmulas de cortesia:
Bom dia. Adeus.
Muito obrigado. Com licença.

- Interjeições, exclamações:
Chi! Oba! Credo! Caramba!
Coitado do velho!
Que horror!
Essas frases unimembres, freqüentíssimas na linguagem coloquial, são também bastante empregadas na literatura moderna. Em poesias descritivas e narrativas esse tipo de frase produz efeito de rapidez, de enfoque sucessivo dos traços mais significativos das coisas, das pessoas, dos cenários, dos lances mais importantes da ação ou dos acontecimentos.

 Frases fragmentárias: são fragmentos destacados de outras frases mediante a entoação; a sua significação depende do relacionamento com as frases de que se destacam. Ex.: “Na outra rua tocavam piano. Monotonamente.”


 ELIPSE : é a brevidade da expressão resultante de alguma coisa que se deixou de dizer, ou por se ter dito em outra frase, oração ou sintagma, ou por outra razão de ordem afetiva ou estética. A frase elíptica escapa à estrutura lógica, explícita, sendo que os elementos omitidos podem ser recuperáveis no contexto ou supridos pelo raciocínio, pela suposição, como base no confronto com a estrutura frásica normal e também no sentido geral do enunciado.
Exs.:
“ Os mangues da outra margem jogam folhas vermelhas na corrente. Descem como canoinhas. Param um momento ali naquele remanso.” (Sag.p. 192)

“ O negrinho se endereça a ele, mas agora com requintes de suaviloqüencia” (Sag. P. 208)

“Soropita se desgostava, não podia deixar de, se eles todos também viessem.” (Noites... p.27)

- A elipse de palavras nocionais é rara, mesmo em escritor inovador como Guimarães Rosa, a não ser os casos já comuns de substantivação de adjetivo. Exs.:
“Vá-se a camisa, que não o dela dentro.” (Tut. p. 39)
“ Já de manhã, no seguinte, ocultando, caçou jeito de aprender a respeito daquelas matérias...” (Noites... p. 21)
“ Eu acho que nunca vi espigas de milho tão como as de lá.” (Ib. p. 73)

- A elipse de palavras gramaticais é a que geralmente ocorre, visto que a relação ou determinação que elas exprimem é dedutível da própria significação dos termos expressos.Exs.:
“Mulher perguntou se ele queria beber gol, se doente estava” (Noites... p. 20)
“ Ali mesmo, para cima do curral, vez pegaram um tatu peba.” ( Manuelzão..., p. 139)
“ Umas moças, cheirosas, limpas, os claros risos bonitos, pegavam nele, o levavam...” (Manuelxão... p. 8)
“ Todos achavam não valia a pena.” (Noites... p. 17)
“Tenho tempo hoje não, moça.” (Noites... p. 19)
“Aquele silêncio, que pior que uma alarida.” (G. sertão p. 207)

 PLEONASMO: Considera-se redundância o fato de uma informação ser transmitida por uma quantidade de signos lingüísticos superior ao essencialmente necessário. Ocorre em todos os níveis da linguagem (fônico, semântico, morfossintático). A noção de grau normal de redundância da língua faz parte da competência dos usuários. Sentimos a sua redução na elipse e o seu aumento no pleonasmo.
Segundo Bally, pleonasmo gramatical é a redundância normal da língua (marca de plura, por exemplo). Já o pleonasmo vicioso é o que se deve à ignorância do significado exato ou da etimologia das palavras (do tipo hemorragia de sangue, decapitar a cabeça etc.). É expressivo o pleonasmo que enfatiza as idéias transmitidas.
Exs.:
“Viram que uma outra também se fora ajuntando, crescendo, sem que eles reparassem, e era enorme agora, guaçu, macota, gigantesca! amavam o João! Adoravam João!” ( M. de Andrade, “Jaburu malandro”, Contos de Belazarte, p. 39)

“Todos nus e da cor da escura treva.”
(Camões, Lus. V. 30; ap. C. Brandão)
“Ninguém não vê (...) nem um pé de cana.” (J. Lins do Rego, Menino de engenho, p. 28)

“Deus, esse, minha rica, está longe.” (Eça , Primo Basílio; ap. Guerra da Cal p. 2070

“... estavam sem saber como voltar para suas casinhas deles.” (Manuelzão... p. 18)

 ANACOLUTO: se o termo que inicia a frase fica sem função sintática própria, servindo apenas como co-referente de um pronome mais ou menos próximo, temos a quebra de construção a que se dá o nome de anacoluto.
Ex.: “ Eu, que era branca e linda, eis-me medonha e escura.”
(Poesia completa e prosa, p. 126)

“Santo Antônio, (...) abriu-lhe Deus um dia os olhos para que visse neste mundo o que nós não vemos.” (Sintaxe clássica portuguesa p. 810)

Um dos melhores exemplos de anacoluto, pela simplicidade e pelos efeitos estilísticos, é este de Gonçalves Dias, na “Canção do tamoio”:
“O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz.”
(Poesias americanas, em Obras poéticas, t. 2, p. 43)
O termo forte, a que se relacionam os pronomes seus e o, ganha força expressiva por encabeçar o verso e por ficar anteposto ao seu antônimo.

Dos modernos escritores brasileiros, talvez seja Raches de Queiroz quem mais usa o anacoluto, bem ajustado a sua prosa de tom coloquial, com raros artifícios. Ex.:
“D. Mundinha, criados os filhos, sozinha em casa com o seu velho, davam-lhe nostalgias da maternidade, de crianças pequenas.” (p. 51)

Pelos exemplos, pode-se observar que o anacoluto é também um pleonasmo; talvez se explique melhor dizendo que o anacoluto está na quebra da estrutura sintática e o pleonasmo na presença de dois vocábulos para uma idéia.


 PARTÍCULA DE REALCE

Certas partículas destituídas de valor nocional e sintático, mas portadoras de valor expressivo, comumente chamadas de realce ou espontaneidade, ou ainda expletivos.
Mattoso Câmara enumera os seguintes casos:
- um pronome adverbial:
“ - E vocês também não me voltem mortos. Quero-os bem vivinhos e perfeitos.” (M. Lobato. O Minotauro, em Obras completas, p. 84)

- um pronome reflexivo com verbos intransitivos:
“Daí, caminhou primeiro até de costas, fugiu-se, entrou outra vez no mato.” (G. Rosa, G. sertão, p. 221)

- um advérbio como lá, bem, assim:
“Vocês são brancos, lá se entendam.” (frase feita)

- partícula que:
“Bem que sabe o que eu quero dizer.” (G. Rosa, Sag. P. 200)
“Chegou perto da veda, olhou que mais olhou, e deu um grito desmaiando.” (M. de Andrade, Macunaíma, p. 23)
“Ele é que mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava.” (M. de Assis, Memórias..., em Obra completa, v. I, p. 592)

Além dos casos relacionados por Mattoso Câmara podem acrescentar-se:
- o verbo ser (é, era, foi) precedido ou não de mas:
“Ele está mas é enganado o companheiro!” (G. Rosa, Sag. P. 133)

- aquilo, isso
“Foi ao Morenal com a D. Maria. Aquilo, naturalmente foram para casa das Gansosos passar a noite.” ( O crime do Padre Amaro, em Obras de Eca de Queiroz, v. I, p. 19)

- no estilo superambundante de Guimarães Rosa:
“A chuva de certo vinha de toda parte, de em desde por lá, de todos os lugares que tinha.” ( Manuelzão... p. 23)


 A ORDEM DOS TERMOS DA FRASE
- A Ordem dos Termos no Sintagma Nominal:
De modo geral, coloca-se antes do substantivo o adjetivo que exprime valor apreciativo (uma bela idéia, uma comovente dedicação) e coloca-se depois o adjetivo que enuncia particularidade que caracteriza o objeto, definindo-o, distinguindo-o de outros, classificando-o (homens ignorantes, fama internacional, tecidos finos, música clássica).
A colocação absolutamente predominante do adjetivo antes do substantivo só é encontrada em casos bem excepcionais. O mais comum é que num texto se misturem adjetivos pospostos e antepostos, em proporções variáveis, mas quase sempre predominam os pospostos.
Havendo dois ou mais adjetivos, as possibilidades de distribuição aumentam consideravelmente, podendo ficar todos depois ou antes do substantivo, ou ser divididos, conforme mais convenha ao ritmo desejado. Na linguagem poética encontramos, também, anteposto ao substantivo o adjunto preposicionado. Observe-se na estrofe seguinte de Cruz e Sousa a distribuição dos adjetivos e a anteposição dos adjuntos com preposição:
“Do teu perfil os tímidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços,
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos.”
(Poesias completas, p. 42)

- A ordem dos termos no Sintagma Verbal:
No sintagma verbal é normal que o auxiliar anteceda o verbo principal. Mas quando se quer enfatizar o verbo principal, ele pode ser antecipado, quer na linguagem falada, quer na linguagem poética.
Exs.: “Fugir você não pode.” “Morrer, quem é que quer?”.
“Oh! Ver não posso este labéu maldito!” (C. Alves, Obra completa, p. 199)


- A posição do advérbio:
Os advérbios intensificadores, que se incluem num sintagma nominal, modificando adjetivo ou particípio (muito bonito, demasiado tosco, suficientemente preparado), são normalmente antepostos. Os advérbios que contêm uma determinação precisa se pospõem ao verbo (chegar inesperadamente, agir lealmente, chorar desesperadamente). De um modo geral, o advérbio apresenta grande liberdade de colocação, e essa liberdade aumenta se o advérbio se refere a toda a frase, indicando o julgamento do falante a respeito do fato que enuncia.

- As alterações da ordem direta:
As alterações da ordem “direta” receberam da retórica as denominações de hipérbato, anástrofe, sínquise, prolepse. Como a distinção entre umas e outras não coincide entre os autores nem costuma ser satisfatoriamente clara, é preferível ficar apenas com a denominação genérica de inversão. Esse processo rompe a monotonia da ordem usual, podendo favorecer um ritmo mais adequado ou propiciar um tom mais elegante; na poesia, pode atender à imposição da métrica ou da rima, além da intenção de ênfase.
Bally distingue a inversão afetiva da linguagem comum – um realce dado ao tema da frase - que é espontânea, natural, da inversão retórica, usada na poesia mais pomposa. São inversões de caráter afetivo, não estético, construções como:
É um encanto essa criança.
Bobo é ele.
Dinheiro eu não tenho.
Casar ele não quer.

Como exemplo de inversão artificial, própria da linguagem poética, mais elaborada, podem servir estes versos de Gonçalves Dias, que não chegam, entretanto, a ser obscuros:
“ O que nos resta pois? – Resta a saudade,
Que dos passados dias
De mágoas e alegrias
Bálsamo santo extrai consolador”
(Novos cantos, em Obras poéticas, t. 1. p. 33)

 CONCORDÂNCIA
Há dois tipos de concordância: a lógico-gramatical, estabelecida pela gramática normativa, e a estilística, que ultrapassa os limites da correção, a que atende a necessidades expressionais particulares, a que oferece a quem fala ou escreve possibilidades de escolha.
A concordância estilística pode ser:
 Concordância por atração: ocorre quando o adjetivo e o verbo concordam não com o termo que logicamente lhes determinaria as flexões, mas com um termo mais próximo e de maior importância no contexto e no espírito de quem fala ou escreve.
Ex.: “Vi um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade.” (M. de Assis)

 Concordância ideológica (ad sensum, sínese, sliepse) : as flexões assumidas pelo verbo ou pelo adjetivo não são compatíveis com os termos presentes na frase aos quais eles se prendem gramaticalmente, mas com a idéia que eles despertam na mente de quem fala ou escreve.
Ex.: “Consultemos o coração aqueles que o tivermos.” (Camilo)

 Concordância afetiva: a que se deve ao influxo da emoção.
Ex.: “ O compadre compreendeu tudo, viu que Leonardo abandonava o filho, uma vez que a mãe o tinha abandonado e fez um gesto como quem queria dizer: - Está bem, já agora... vá; ficaremos com uma carga às costas.”

• OUTROS EXEMPLOS DE CONCORDÂNCIA ESTILÍSTICA:
1. Estrelas era com ele. (Raul Pompéia, O Ateneu, p. 39)
2. (...) e o casal esqueceram que havia mundo. (M. de Andrade, Macunaíma, p. 56)
3. O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. (R. de Queiroz, 100 crônicas,p. 280)
4. Mas a gente é sertanejos, ou não é sertanejos? (G. Rosa, Grande Sertão, p. 295)

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